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[in]Sensato

Momentos de reflexão, opinião, crítica e entretenimento

03
Ago18

Ao telefonar para o 112 - Ainda as Medidas Preventivas


por P. P.

   Eis-nos perante um dia infernal, sobretudo para quem não reage bem às temperaturas elevadas que se têm feito sentir. 

Cheguei a casa pouco antes das 12h, após, como é normal, na companhia da minha mãe, efetuar as compras essenciais para a casa, sobretudo para a minha avó, e passarmos um pequeno momento a dois, numa esplanada. 

 

   Ao aproximarmo-nos da nossa residência, apercebemo-nos de um senhor que caminhava de forma inusitada, apesar da idade. Felizmente, pronta e atempadamente foi amparado pela minha mãe e vizinho, juntando-se ainda um outro, contrastando com alguns conhecidos que passavam de carro, abnegando a ocorrência. Colocamos o Sr., que todos nós conhecemos, em PLS (Posição Lateral de Segurança) apesar de desconfiarmos de uma quebra de pressão arterial e provável desidratação/consequência secundária das elevadas temperaturas, até porque ele vinha do seu passeio matinal. Independentemente da idade, existem situações de socorro que podem ocorrer em qualquer idade, razão pela qual não indico qualquer aspeto cronológico. Por outro lado, é importante seguir as recomendações deixadas aqui.

 

   A aventura começou ao ligar para o 112

Além de um atendimento impessoal, em várias línguas, chegou a vez de uma sr.ª comunicar comigo. Apesar da minha formação abranger as ciências naturais, no ensino secundário tive a disciplina de Socorrismo, por sinal muito bem lecionada, por parte de um enfermeiro. Após uma sucessão de perguntas ridículas, atendendo à minha formação académica específica, por parte dos serviços do 112, que diziam procurar averiguar a necessidade de uma ambulância, estando nós a 3Km dos bombeiros municipais, já fora de mim, recorri a um tom pouco cordial plasmando o já aqui citado. Afinal, para quê tantas perguntas absurdas? Só faltou perguntarem se o sr. usava cuecas, qual a cor e outros pormenores íntimos. Caso eu estivesse enganado e nos deparássemos com um AVC, o tempo desperdiçado culminaria em morte ou efeitos secundários nefastos e desnecessários. 

 

   Volvidos 10 a 15 minutos, a ambulância chegou

Pergunta daqui, pergunta dali, com as quais até concordo, em certa medida, não tivesse decorrido tanto tempo. A verdade é que, enquanto fiquei a cuidar da minha avó, a minha mãe acompanhou o Sr. na ambulância até à cidade vizinha durante cerca de 7h. O meu diagnóstico confirmou-se, mas não é isso o que importa. Trata-se de uma questão de tempo. Alguns minutos podem custar uma vida.

A verdade é que, ao levar as compras do carro para casa, também eu fui atingido pelos danos das temperaturas em causa. Imaginem querer agarrar uma garrafa de água e não conseguir... Contudo, comigo tudo se resolveu e o que quero destacar é esta forma de funcionamento (triagem?) por parte dos serviços de emergência médica, vulgo 112.  

 

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Photo by rawpixel.com from Pexels 

 

   Os folhetos que se seguem, além de reforçarem o post já aqui publicado , procuram reiterar as medidas de saúde pública preventiva geral, para crianças e idosos.

 

A consultar





 

09
Jun18

A mãe faz anos e esta é diferente de muitas


por P. P.

Postal de Aniversário by PP

 

 

Não é fácil escrever a respeito da minha mãe.

Nem todos parecem abençoados nesta vida.

 

   O pai, um GNR que tudo gastava em amantes e na bebida, nada depositou no futuro das filhas. Como tal, a mãe, de quem agora é cuidadora, foi mãe e pai ao mesmo tempo. O ambiente de violência doméstica sempre a envergonhou pelo que talvez por isso tenha acabado por casar cedo, com o único namorado. 

 

   Mãe aos 19 anos, não estava preparada para um marido com traumas de guerra. Quem é que neste país estaria? Algo que soubemos bem tarde, quando começou-se a falar das consequências psicológicas dos ex-combatentes do Ultramar.. Como tal, também ela foi vítima de violência doméstica, inclusive quando com o filho portador de deficiência nos braços, perante os sogros que o e a abnegavam, procurando incendiar a relação. O bebé acabou por morrer. Já ela, quase perdeu a voz, com a paralisação das cordas vocais. Nem todos choramos...

Foi então que da casa dos sogros, onde pagavam uma renda elevada para a época e ainda consumíveis, o casal acabou por ir viver para uma pequena casa, de parcas condições. Aí fui concebido e ainda lá vivi alguns anos da 1.ª infância. Entretanto, na Alemanha, o meu pai trabalhou na Mercedes Benz, por forma a ter a sua própria casa. Um erro. Não devemos apostar tudo numa casa, numa grande casa. Tudo sofre alterações, algumas das quais nefastas. 

 

Talvez com a pequena "casita" tenhamos aprendido que não é preciso muito para sermos felizes. Em todo o percurso, sempre a seu lado, a minha madrinha e a filha, minha prima, de quem já vos apresentei algumas obras de arte. A irmã, personagem que venerei até aos meus 19 anos, estabeleceu uma relação sem amor, a não ser pelo próprio umbigo. Por vezes, o nosso coração impede-nos de ler os olhos dos outros e de acreditar no óbvio.

 

   Em 1981, no intuito de acompanhar a meu percurso escolar e com o receio de que me tornasse como o meu avó, eis que o meu pai veio para Portugal. Foram postas de lado as hipóteses de todos irmos viver para a Alemanha ou eu ficar em Portugal, com os avós, uma vez que ela temia que eu viesse a passar pelo que vivenciou até casar. Na Alemanha, com as regras de então, não sofreríamos muito do que o destino nos reservou, destacando a minha componente pessoal e social.

 

   Já em 1982, quando ainda poucas mulheres portuguesas trabalhavam fora de casa, eis que iniciou funções num matadouro, no qual o meu pai era responsável pelos serviço levados a cabo por mecânicos e motoristas. Quando aborrecido com o trabalho, ambos tremíamos. Sim, vi o meu pai bater na minha mãe, assim como muitas vezes levei, sem nada de errado ter feito e fui humilhado. A humilhação causar uma dor superior às agressões físicas, dado perpetuar-se. Ela, com o ambiente de um matadouro, ditou algumas das sentenças ao nível da sua saúde.

 

   Com falta de vaidade, a comida  foi sempre a sua libertação, algo que herdei. Quer dizer, no que à vaidade diz respeito, no meu caso, esta começou a morrer, lentamente, em 2009. Todos devemos alimentar o nosso lado extravagante, de prazeres, sem olhar aos ecos ocos e cínicos de alguns séquitos. O trabalho no campo, o contacto com a natureza e animais relaxavam-na. Sempre se sacrificou por mim.

 

   Mudadas algumas variáveis no contexto familiar, dado o meu crescimento, presenciamos o desemprego na família, sem que eu soubesse que tinha direito a bolsa de estudo. Tal uniu-nos. Sempre comprámos os bens a pronto e por vezes, dividíamos o custo de algo mais dispendioso. Entretanto, aprendi que amigos são de facto aqueles que permanecem nas horas difícieis. No entanto, admito sempre ter disfarçado e até representado, uma vez que "ter pena é não gostar de alguém".

 

   A sua submissão e anulação das vontades foram a sua imagem de marca. Todos devemos ousar, negociando os limites com a pessoa amada ou portadora de ciúmes doentios, que mais não são do que "falta de confiança em si próprio". Sei que, naqueles tempos, não se falava em traumas de guerra e ela não pretendia alimentar discussões semelhantes às que presenciara até casar, ... O mesmo já tinha feito a mãe, esta com tantas razões para divorciar-se, mas sempre pos em primeiro lugar as filhas. Já eu, perdi-me. A ansiedade crónica e a depressão vestiram-me com seus lençóis encardidos.

 

Quando comecei a trabalhar muito mudou. Ou pelo menos alguma coisa, dadas as dificuldades nas colocações, o mês de setembro sem trabalhar e com futuro incerto, sem qualquer contagem do tempo de serviço ou subsídio de desemprego. Assim, passamos 4 anos. Todavia, tornou-se mais fácil mimá-la. Difícil mesmo foi perder a fobia da condução. 

 

   Em 2011 veio a Doença de Alzheimer da minha avó. Sem qualquer apoio da irmã (onde está mesmo o iogurte que esta lhe trouxe até à data?) e acamada, transformamos o meu escritório num quarto onde a acolhemos. Os procedimentos para se tornar sua tutora, entre outros aspetos, foram de tal forma infernizados por quem devia amar a minha avó... Um ano depois, foi diagnostico um tumor numa glândula salivar da minha mãe. Nesta fase, apesar de colocado a 110 km de casa, eu e o meu pai, com a ajuda de uma senhora, conseguimos levar avante os cuidados essenciais junto da minha avó. As notícias dos progressos eram-me feitas chegar pela minha prima, sobrinha do meu pai, uma vez que o homem forte e duro, afinal não o era. As nossas máscaras caem com o tempo ou temos que mudá-las.

   Esta foi uma fase de mudança para a minha progenitora. De forma alguma pela positiva. Nunca se libertou dos fantasmas do período durante o qual esteve entubada, no aspeto monstruoso que foi melhorando com o decorrer do tempo, graças a um excelente cirurgião que a acompanhou, o magníco Dr. Canas. O facto de não poder usar prótese dentária e um pequeno declive no canto dos lábios esquerdos, o qual deve ver ampliado, geraram complexos em quem não os tinha. Quem sou eu para criticar?

   Passado um ano, eis-nos perante o diagnóstico do cancro do meu pai, mieloma múltiplo. Não escondi o que o futuro nos e lhe reservava. Pelo contrário, escondemo-lo dele. Foram dias de intenso sofrimento para quem não estava habituado a mentir ou ocultar a realidade, no seio familiar. Os dias seus dias, a caminho da morte, foram repletos de sangue, feridas, gemidos estridentes, médicos que não davam uma palavra de alento e ainda ousavam mentir, desconhecendo a minha área de formação. E tanto há a dizer. Não imagino o estado do corpo que ela deve ter encontrado na morgue do hospital. Fez questão de o vestir... Qualquer filme de terror é menos assustador. Contudo, o corpo foi tratado e trabalhado e conseguimos realizar um funeral digno. Difícil foi o nosso processo de luto embora, se nada acontece por acaso, a minha avó tenha sido o nosso estímulo, durante estes três anos, dado estar totalmente de nós. 

 

   Desde então, pelo menos 1 vez por ano, eis-nos perante um novo "susto" e o receio de novo cancro. 

   Acredito que não tenha sido o filho esperado/desejado e sei não corresponder às expetativas. As imposições das colocações de professores levaram-me a não dar continuidade à família. Não posso esconder o receio de cometer erros pelos quais passei e outros aos quais assisti. A hereditariedade não deixa de ser um fenómeno complexo. Isto sem esquecer o domínio mental, implícito em tantos acontecimentos nefastos.

 

   Temos conseguido sobreviver, com dignidade e algum alento. Por vezes, deixámo-nos abater, sobretudo quando a minha avó piora. Não fazemos questão da presença de quem não venha por bem. Antes sós.

 

Em suma, tenho uma mãe resiliente 

 

A música escolhida para o seu dia está repleta de sofrimento, não só na história como nos acordes iniciais.

 

 

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