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[in]Sensato

Momentos de reflexão, opinião, crítica e entretenimento

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O Mutismo da Despedida - o último capítulo

Janeiro 25, 2019

P. P.

 

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II.ª parte - O capítulo final

 

     Quando à minha avó foi diagnosticada a doença de Alzheimer, ficando quase logo acamada, por problemas no sistema locomotor, dado trabalhar a 115 Km de distância, o que implicou vê-la quinzenalmente, escrevi as linhas seguintes, no blogue de então, a minha casa.

 

 

Não raramente, pensei que as despedidas pudessem acontecer dentro desta dimensão planetária. Considerava impreterível a inércia de um corpo e a viagem de uma alma entre mundos opostos, dissipados nas verborreias de uma ou outra crença capaz de em nós soltar o abraço da ténue confiança, tão relevante para a cobardia. Afinal, existem despedidas sem adeus. Despedidas encerradas num mutismo elevado ao sentido da dor. Destino ou consequência fisiológica, assim foi a sua.

 Neste outono, num dia trivial, solarengo e chuvoso como tantos outros, fez-se silêncio nas percepções do mundo real. Sem aparentar qualquer sofrimento, com o suporte do chão rochoso, eis que aquele ladrar da cadela serra da estrela sinalizou a sua localização. Caída estava, não naquele lugar, não naquele momento… Ao estender a mão ao genro, para a ajudar a levantar-se, a primeira referência: queria uma mão para com ela atravessar o rio que à sua frente corria . Um rio da sua infância, da sua terra natal. Desde então, sucessivas e constantes abordagens ao passado.

   O regresso não mais se fará.

   Quando de novo a encontrar, ainda me reconhecerá?…

Artigo da minha autoria, datado de 16/11/2011

 

     O tempo passou, entre preocupações, momentos de adaptação mútua, uma aprendizagem contínua, receios... Os apoios, orientações e ajudas foram poucos. Subitamente, com os pais, vimo-nos no papel de cuidadores informais. Mas nem sempre as ações que consideramos corretas são acompanhadas pela justiça dada pela vida.

    No ano seguinte, o cancro da minha mãe foi diagnostico seguindo-se, volvidos 372 dias, a mesma situação, desta vez, na pessoa do meu pai. Dolente e cruel, o mieloma múltiplo do meu progenitor progrediu de forma caótica, deixando-nos marcas que ainda não sararam, desde a sua partida, volvidos 4 anos. Independentemente das circunstâncias e dos momentos/etapas de vida, a minha avó sempre teve a nossa atenção e recebeu os nossos cuidados. 

     A nossa certeza, a partida não seria fruto da demência. Na verdade, o mutismo saliente e evidente fez-se sentir em dezembro. Os intestinos deixaram de funcionar, a alimentação foi feita com recurso a seringas, uma ferida surgiu na orelha, a voz perdeu a potência e na perna, uma isquémia que alastrou, de forma significativa há 4 dias. Com o coração a bater com a força de um passarinho, amputar a perna foi posto de parte. Na quarta, enquanto a minha mãe lhe colocava creme no rosto, os olhos fecharam-se. Não querendo acreditar no sucedido, fizemos diferentes palpações, julgávamos sentir o pulso inexistente, ... A sua paz chegou, levando-a por um manto que não creio negro. Em nós, a dor da saudade. Por parte da sua gata, a homenagem ficando sentada no sofá junto à dona, onde ainda hoje permanece, saindo apenas para comer ou realizar as necessidades fisiológicas. 

    Ontem, foi um dos dias mais duros da minha vida. Como foi doloroso levá-la à sua última morada. Sem rugas, já que a sua vida foi repleta de espinhos, com uns 4 cabelos brancos nos seus 91 anos, assim viajou um corpo cuja alma acredito igual. Transparentes. Debati-me perante aquela que considerei uma segunda mãe e que foi, durante anos, a nossa bébé. Não foi fácil controlar a emoção, perante os meus sentires e os da minha mãe que, agarrada a um corpo sem vida, lamentava já não ter quem cuidar, aquela que foi a Sua mãe e o facto de agora sermos dois. Sim, dois e uma gata. Do futuro, não esperamos facilidades, mas somos fortes para oferecer resistência às vicissitudes que nos forem surgindo.

     Neste momento, dada a minha dificuldade em escrever e organizar o raciocínio, partilho as palavras que utilizei pouco após a sua morte, com ligeiras adaptações. Também elas dotadas de sentimento, sem atenção a critérios ortográficos ou de outra natureza. 

 

 

"Vovó", a última forma que utilizei, por forma a reconhecer-me. Tentei-a, ao ouvir uma amiga mencionar, com carinho, a forma como é abordada pela netinha, uma vez que "avó" já nada significava para a avó E.
"Mãe", assim reconhecia (desculpem a redundância) e chamava a minha, sua filha. Agora, sou só eu e a minha mãe..
O Alzheimer não mata, mas as consequências são devastadoras. A minha avó, connosco ficou, em casa e aos nossos cuidados 7 anos e 3 meses. Rimos, choramos, desesperámos...
Agora descansa em paz.
A paz merecida por uma mulher com M, que foi mãe e pai, apesar de casada, com um homem que jamais a mereceu ou respeitou. Ela que foi das poucas pessoas que sei ter-me amado. E das que me ama...
Um obrigado a todos aqueles que, de uma forma ou de outra ,estiveram connosco, neste longo período de sofrimento, que evidencia o quanto a vida não é justa. Pelo menos, para alguns...

 

Que deus te dê o eterno descanso.

 

Um adeus a Bernardo Bertolucci

Novembro 26, 2018

P. P.

Bernardo Bertolucci.png

 

 

   Realizador e roteirista italiano, Bernardo Bertolucci marcou a minha adolescência com 1900 e O Último Tango em Paris, filme considerado erótico, que encaro como dramático.

Foram tantas as outras obras deste e de outros realizadores europeus. Sim, o nosso continente tem uma história cinematográfica muito rica e reflexiva. Convido-vos a explorarem-a. 

Além do YouTube, uma vez que a RTP já não transmite ciclos de cinema tão nobres, podem recorrer à plataforma Filmin.

 

 

RIP

 

Um adeus a Charles Aznavour

Outubro 01, 2018

P. P.

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   Hoje, entre concertos, partiu uma das maiores estrelas da música francesa, aos 94 anos. Trata-se de Charles Aznavour.

De acordo com o El Pais, a sua vida pode resumir-se a 5 canções:

 

 

   A música francesa teve grande presença no nosso país, fruto da emigração. A qualidade de alguns dos seus intérpretes é inolvidável. Aznavour foi o Frank Sinatra francês. O intérprete de She, na língua do amor.

 

La Boheme

 

 

 

 

Por quem não esqueci

Julho 05, 2018

P. P.

Ricardo Camacho

 

Ricardo Camacho (1954 – 2018)

 

   Produtor, compositor e teclista da Sétima Legião e ainda Médico que se dedicava à investigação da SIDA. Nasceu na ilha da Madeira. Morreu ontem, na Bélgica. Entregou-se hoje a um ‘A Um Deus Desconhecido’.

Fica sempre a obra, mas não chega porque dói.

 

 

Ricardo Camacho foi um dos importantes pilares da modernidade que a música portuguesa começou a desenhar na década de 80, quando, já em ambiente de total liberdade conquistada com o 25 de Abril, uma nova geração começou a sacudir a mentalidade “orgulhosamente só”, a assumir que as canções não estavam obrigadas a serem espaços doutrinários e que a pista de dança podia também ser um espaço de liberdade.

 

Extraído do Blitz, em 04/07/18

 

   Uma peça fundamental na carreira de António Variações, a sua intervenção fez-se também sentir junto a Manuela Moura Guedes, como autor de Foram Cardos, Foram Prosas e dos GNR. Um ano depois de Variações se estrear, Ricardo Camacho assegurou a produção de outro primeiro single, este a cargo dos Sétima Legião, Glória. Desta banda da minha infância e adolescência, na qual foi também músico, que destaco Por Quem Não Esqueci.

 

 

   A versão acústica deste tema na voz de Diogo Piçarra, aqui.

 

Na foto da capa desta publicação, A Sétima Legião nos anos 80. Ricardo Camacho é o terceiro a contar da direita - Arquivo BLITZ

Um adeus a Dolores O'Riordan

Janeiro 16, 2018

P. P.

 

Adeus-PixTeller-188525 by PP

 

 

 

 

   Um dia, na primeira metade dos anos 90, perído em que pouca música me seduziu, pela manhã, ao som da RFM,  antes da aula de Geometria Descritiva, acordei ao som de uma banda capaz de me embalar no sono e deambular entre as nuvens. Como naqueles tempos, a internet apenas ainda despertava, só mais tarde descobri que o tema que me fazia viajar, presente em alguns momentos da novela A Viagem, em transmissão na SIC, pertencia à mesma banda. Este último era Linger dos The Cranberries

 

   A revolta, a paixão, musicalidade, as letras, o contraste entre temas suaves e "pesados" e a mensagem levaram-me, anos mais tarde, a comprar, de forma compulsiva, toda a discografia da banda, mantendo-me fiel até ao penúltimo disco. 

 

 

 

   Ontem, aos 46 anos, morreu a vocalista dos The Cranberries, a magnífica Dolores O'Riordan, com apenas 46 anos ( 06/09/1971 - 15/01/2018). Ela foi uma ilustre e marcante figura do indie pop da década de 90. Um dos temas mais marcantes, dada a intenção e objeto abordado foi Zombie.

 

 

 

   Os Cranberries desfrutaram de considerável sucesso no seu auge, mas o mesmo não foi imediato. O seu disco de estreia, Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We?, foi lançado em 1993, marcado pelas guitarras cristalinas e melodiosas e o registo etéreo e delicado de O’Riordan. Estes foram os preâmbulos para o sucesso da banda.

 

   Quando a MTV apostou neles, a sua popularidade cresceu. Dreams e Linger chegou às massas graças à sua sensibilidade pop e aos seus inesquecíveis refrões.

 

 

 

   "A sua ascensão levou a que, em 1994, o seu sucessor No Need To Argue escalasse os charts com maior facilidade. O som que este apresentava combinava uma construção sonora mais polida e refinada, como é o caso de  Ode To My Family, com uma abordagem que ao mesmo tempo era mais pesada, de que é exemplo, Zombie " (adaptado por P.P. de "A Vida de Dolores O'Riordan")

 

   O novo milénio foi pouco frutífero para os The Cranberries. Após Wake Up and Smell The Coffee, de 2001, O’Riordan enveredou por uma breve carreira a solo.

 

 

Ouça-se e sinta-se a musicalidade de Promisses.

 

 

   Um dos últimos temas da banda foi Roses, em 2011.

 

 

 Do último álbum, em 2017, deixo-vos Why , um tema etéreo e com poder ao nível da letra.

 

 

   "O desaparecimento dos holofotes levou a um abrandamento em termos de escrita. Os problemas de saúde e da vida pessoal com que a vocalista se debateu em 2013 também acabou por afetar tanto a consistência quanto a qualidade do seu material. Há oito meses, a própria revelou a sua luta com a bipolaridade, e, para além disso, viu-se forçada a cancelar concertos devido a fortes dores que sentiu nas suas costas, dores essas que estavam a afetar a sua respiração. Dolores O’Riordan estava em Londres para fazer uma pequena sessão de gravação quando ontem, faleceu súbita e inesperadamente" (Dias, Daniel, A Vida de de Doleres O'Riordon, acedido a 16/01/18, às 13h.30min).

 

   Um Adeus a uma das minhas Estrelas.

Que descanse em Paz.

 

 

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