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[in]Sensato

Momentos de reflexão, opinião, crítica e entretenimento

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Momentos de reflexão, opinião, crítica e entretenimento

Pequeno poema

Maio 05, 2019

P. P.

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Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama

 

As Mãos do Meu Pai

Março 20, 2019

P. P.

"As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos…

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida…
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma…”

 

Mário Quintana, As mãos de meu pai

 

 

Do Dia Internacional da Mulher, Natália Correia

Março 09, 2019

P. P.

international-womens-day-4032042_1920- <a href="https://pixabay.com/pt/photos/dia-internacional-da-mulher-08-mar%C3%A7o-4032042/">Image</a> by <a href="https://pixabay.com/pt/users/Victoria_Borodinova-6314823/">Victoria_Borodinova</a> on Pixabay

Image by Victoria_Borodinova on Pixabay 

 

Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem o gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.


Natália Correia, in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias"

Pode ouvir o poema, aqui.

Al Berto - Pernoitas em Mim

Junho 18, 2018

P. P.

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pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'

 

Fonte das imagens - Tumblr de autores desconhecidos

Filme Al Berto - um poeta maldito?

Junho 11, 2018

P. P.

Al Berto

 Ler o artigo da Rádio Sines

 

 

 

   Alberto Raposo Pidwell Tavares, que adotou o pseudónimo de Al Berto, nasceu em 1948 em Coimbra, mas viveu toda a infância e adolescência em Sines, no litoral alentejano. Após um exílio em Bruxelas, entre 1967 e 1974, onde estudou pintura, regressou a Portugal para se dedicar à literatura. Morreu aos 49 anos. A sua poesia é densa, por vezes taciturna, associada aos fantasmas da vida de quem não receia dizer o que pensa, ainda que vivendo, até certo ponto, só. Pode encontrar alguma das suas obras literárias, para venda, aqui.

 

Um momento de poesia, pelo próprio, em 17 de janeiro de 92.

O conteúdo pode ser ofensivo para pessoas mais sensíveis, mas corresponde à realidade, naqueles tempos, da relação entre o público português da época e a poesia. Aqui, encontra uma transcrição escrita.

 

 

Um momento mágico do autor, em sida.

 

 

 

 

   Trata-se de um drama biográfico que relata um período da vida de um dos mais carismáticos poetas portugueses da segunda metade do século XX, entre 1975 e 1978. Tal sabe a pouco, por vezes confundindo-se a obra cinematográfica com um filme LGBT. A realização e o argumento ficam a cargo de Vicente Alves do Ó.

 

   Em Sines viveu, naquele período, de forma aberta, uma relação condenada pela sociedade. 

Neste documentário não encontramos a literatura do poeta maldito, ligado à noite, mas uma fase de devaneios, fruto da liberdade aparentemente conseguida no país de brandos costumes, influenciada pela música e cultura inglesa e francesa. Não esquecer o espírito libertário, tão característico dos americanos, nas décadas de 60 e 70.

 

   Al Berto viveu com um grupo de amigos numa casa senhorial à entrada de Sines, conhecida como “palácio”. A casa tinha sido pertença da família dele, mas fora expropriada para a construção de bairros operários do complexo industrial de Sines (a parte inglesa da família de Al Berto, os ingleses Pidwell, foi viver para Sines no fim do século XIX e enriqueceu com a indústria conserveira, criando laços familiares com latifundiários alentejanos). No palácio, este grupo de jovens esclarecidos de Sines adotou um estilo de vida hippie, em regime de ocupação. No período em análise, Al Berto viveu um história de amor com o irmão do realizador deste filme, que acabou de forma turbulenta.

 

   Vinte anos volvidos da morte do poeta, a 13 de junho, o trailer do documentário foi lançado, neste mesmo dia, em 2017. Atores pouco conhecidos do público, mas com grandes capacidades artísticas. Embora tenha gostado, considerando-o um filme ao estilo dos canais ARTE ou Sundance, esperava mais ousadia, história e ação.

 

Nota 3 em 5 

 

 

Escrevo-te a Sentir Tudo Isto

Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor

Agosto 19, 2017

P. P.

 

 

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Foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos

 

estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição

 

os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida

 

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração

 

Al Berto in O Medo

Poesia - Eu e Ela

Julho 22, 2017

P. P.

flowers-677371 @ Pixabay

 

 

 

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou apagãos, via à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavaleiro de Faublas...

 

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

 

 

Direitos

Ainda que procure uma utilização cautelosa e não abusiva de textos, imagens e sonoridades, poderá haver lugar à utilização indevida de obras objeto de direitos de autor. Contudo, apesar do recurso às hiperligações de origem, sempre que a legislação o implique ou seja devidamente informado, de imediato procederei a reajustes. Os textos e fotografias sem referência bibliográfica são da minha autoria.

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