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[in]Sensato

Momentos de reflexão, opinião, crítica e entretenimento

26
Jan19

Terminado, ou não, um ciclo de dor ...

por P. P.

É altura de agradecer

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    Apesar da dor e da confusão que se instala nestes momentos, limitando as nossas capacidades, é chegado o momento de em meu nome e no da minha mãe, agradecer a todos aqueles que nos "deram a mão", durante este percurso iniciado em 2012, pautado não somente pela demência, como também por 2 cancros distintos, perdas e episódios de burnout. Por "dar a mão" entenda-se também uma palavra amiga, um sorriso, alento... E destes, fazem parte muitos de vocês, amigos da blogosfera.
 
 
    O papel dos cuidadores informais é ingrato. Dificilmente compreendido por quem nunca o exerceu e/ou desconhece as doenças mencionadas. Inclusive, injustiçado por pessoas com "formação superior". Não posso esquecer, quando certo dia, no período do intervalo da manhã, certos colegas terem proferido que também eu podia ser transmissor de cancro, como se de uma doença contagiosa se tratasse, dado os meus pais, naquela altura, em simultâneo, terem a doença. Ou quando, na mesma escola e pelos mesmos elementos, qualquer esquecimento meu era rotulado de Alzheimer. Não me peçam para gostar de tais seres desprezíveis. Porém, de nada adianta odiar a ignorância. Afinal, estes seres não refletem a imagem de quando me vejo ao espelho, a vossa, nem a de tantos outros.
 
   Como cuidadores, o cansaço psicológico instala-se, fruto das inúmeras noites não dormidas, dos medos, incertezas, dos sinais e sintomas das patologias em causa,... Um obrigado a todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, tentaram aliviar a nossa dor, nesta perda recente, que na quinta-feira culminou em conduzir à sua última morada, a nossa "bebé", mãe e avó. Que a Luz vos guie e ilumine.
 
    Obrigado, aos meus antigos alunos, desde o início de carreira até aos atuais, a muitos dos auxiliares de educação/administrativos das Escolas por onde passei e amuitos dos pais/EE das minhas turmas. A alguns dos meus professores, desde o ensino básico ao superior, alguns familiares, aos nossos vizinhos e ao meu grupo de colegas de trabalho/amigos desde o meu 1.º ano de serviço (vocês sabem quem são!). No que ao corpo clínico diz respeito, obrigado à neurologista da minha avó e aos médicos de clínica geral que cuidaram de cada um de nós, aturando as nossas birras e cinzentismo. Não posso deixar de mencionar ao meu atual diretor, desde há 4 anos, o único merecedor de toda a minha consideração, pois sempre me respeitou, tratou com delicadeza e correção. Não posso deixar de mencionar todos os profissionais da "nossa" farmácia e a "nossa" solicitadora. Agradeço ainda à minha coach, da Mindcoaching, Dr.ª Filipa Ferreira. Também a todas as pessoas "comuns", que neste ou naquele momento, revelaram o quanto são bem formadas, através de gestos simbólicos ou palavras. A "formação" é interior e não aquela que se adquire nas universidades. Por isso, não podemos invalidar um "analfabeto".
 
    A missa do 7.º dia realizar-se-à na próxima sexta-feira, dia 1, às 18h, na nossa terra.
 
    A todos vós, Paz, saúde e amor.
 
Um sentido e sincero "Obrigado".
Como dos mencionados, de forma implícita ou não, alguns estão em sofrimento ou têm um ou outro ente querido em sofrimento, muita força e alento.
 

#doençadealzheimer

#cancro

#gratidão

#morte

#adeus

#pessoasdemerito

25
Jan19

O Mutismo da Despedida - o último capítulo

por P. P.

 

pexels-photo-208315.jpeg

II.ª parte - O capítulo final

 

     Quando à minha avó foi diagnosticada a doença de Alzheimer, ficando quase logo acamada, por problemas no sistema locomotor, dado trabalhar a 115 Km de distância, o que implicou vê-la quinzenalmente, escrevi as linhas seguintes, no blogue de então, a minha casa.

 

 

Não raramente, pensei que as despedidas pudessem acontecer dentro desta dimensão planetária. Considerava impreterível a inércia de um corpo e a viagem de uma alma entre mundos opostos, dissipados nas verborreias de uma ou outra crença capaz de em nós soltar o abraço da ténue confiança, tão relevante para a cobardia. Afinal, existem despedidas sem adeus. Despedidas encerradas num mutismo elevado ao sentido da dor. Destino ou consequência fisiológica, assim foi a sua.

 Neste outono, num dia trivial, solarengo e chuvoso como tantos outros, fez-se silêncio nas percepções do mundo real. Sem aparentar qualquer sofrimento, com o suporte do chão rochoso, eis que aquele ladrar da cadela serra da estrela sinalizou a sua localização. Caída estava, não naquele lugar, não naquele momento… Ao estender a mão ao genro, para a ajudar a levantar-se, a primeira referência: queria uma mão para com ela atravessar o rio que à sua frente corria . Um rio da sua infância, da sua terra natal. Desde então, sucessivas e constantes abordagens ao passado.

   O regresso não mais se fará.

   Quando de novo a encontrar, ainda me reconhecerá?…

Artigo da minha autoria, datado de 16/11/2011

 

     O tempo passou, entre preocupações, momentos de adaptação mútua, uma aprendizagem contínua, receios... Os apoios, orientações e ajudas foram poucos. Subitamente, com os pais, vimo-nos no papel de cuidadores informais. Mas nem sempre as ações que consideramos corretas são acompanhadas pela justiça dada pela vida.

    No ano seguinte, o cancro da minha mãe foi diagnostico seguindo-se, volvidos 372 dias, a mesma situação, desta vez, na pessoa do meu pai. Dolente e cruel, o mieloma múltiplo do meu progenitor progrediu de forma caótica, deixando-nos marcas que ainda não sararam, desde a sua partida, volvidos 4 anos. Independentemente das circunstâncias e dos momentos/etapas de vida, a minha avó sempre teve a nossa atenção e recebeu os nossos cuidados. 

     A nossa certeza, a partida não seria fruto da demência. Na verdade, o mutismo saliente e evidente fez-se sentir em dezembro. Os intestinos deixaram de funcionar, a alimentação foi feita com recurso a seringas, uma ferida surgiu na orelha, a voz perdeu a potência e na perna, uma isquémia que alastrou, de forma significativa há 4 dias. Com o coração a bater com a força de um passarinho, amputar a perna foi posto de parte. Na quarta, enquanto a minha mãe lhe colocava creme no rosto, os olhos fecharam-se. Não querendo acreditar no sucedido, fizemos diferentes palpações, julgávamos sentir o pulso inexistente, ... A sua paz chegou, levando-a por um manto que não creio negro. Em nós, a dor da saudade. Por parte da sua gata, a homenagem ficando sentada no sofá junto à dona, onde ainda hoje permanece, saindo apenas para comer ou realizar as necessidades fisiológicas. 

    Ontem, foi um dos dias mais duros da minha vida. Como foi doloroso levá-la à sua última morada. Sem rugas, já que a sua vida foi repleta de espinhos, com uns 4 cabelos brancos nos seus 91 anos, assim viajou um corpo cuja alma acredito igual. Transparentes. Debati-me perante aquela que considerei uma segunda mãe e que foi, durante anos, a nossa bébé. Não foi fácil controlar a emoção, perante os meus sentires e os da minha mãe que, agarrada a um corpo sem vida, lamentava já não ter quem cuidar, aquela que foi a Sua mãe e o facto de agora sermos dois. Sim, dois e uma gata. Do futuro, não esperamos facilidades, mas somos fortes para oferecer resistência às vicissitudes que nos forem surgindo.

     Neste momento, dada a minha dificuldade em escrever e organizar o raciocínio, partilho as palavras que utilizei pouco após a sua morte, com ligeiras adaptações. Também elas dotadas de sentimento, sem atenção a critérios ortográficos ou de outra natureza. 

 

 

"Vovó", a última forma que utilizei, por forma a reconhecer-me. Tentei-a, ao ouvir uma amiga mencionar, com carinho, a forma como é abordada pela netinha, uma vez que "avó" já nada significava para a avó E.
"Mãe", assim reconhecia (desculpem a redundância) e chamava a minha, sua filha. Agora, sou só eu e a minha mãe..
O Alzheimer não mata, mas as consequências são devastadoras. A minha avó, connosco ficou, em casa e aos nossos cuidados 7 anos e 3 meses. Rimos, choramos, desesperámos...
Agora descansa em paz.
A paz merecida por uma mulher com M, que foi mãe e pai, apesar de casada, com um homem que jamais a mereceu ou respeitou. Ela que foi das poucas pessoas que sei ter-me amado. E das que me ama...
Um obrigado a todos aqueles que, de uma forma ou de outra ,estiveram connosco, neste longo período de sofrimento, que evidencia o quanto a vida não é justa. Pelo menos, para alguns...

 

Que deus te dê o eterno descanso.

 

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