As bolachas, aquelas bolachas
Junho 05, 2019
P. P.

Ela vivia entre o silêncio e a hesitação.
Um mundo revolto, com poucas cores, pautado pelo medo e a incerteza. Aquela que congela e inibe.
Durante o tempo na Instituição, a vontade de regressar ao lar, acreditando que tudo mudou. Na realidade, tudo piorou com o decorrer dos anos. A incontinência urinária acentuou-se. Naquela noite, caso o pai se fartasse da irmã, ela poderia ser a próxima vítima... Numa cama tão próxima da sua, quanto a medida do seu passo.
Numa noite gelada, ao regressamos de uma atividade solidária, já com alguma fome e um manto de brilhantes exposto ao olhar, revelou: - Por vezes, ao fim de semana, no Lar, dão-nos 3 a 4 bolachas. Daquelas simples. São tão boas!
Referia-se à Bolacha Maria, com um sorriso e um pequeno brilho no olhar tocantes. De tal forma que, não fosse aquele manto cintilante que nos acompanhava, ajudar-me a ocultar o rosto, na procura de lugares sombrios, e um pequeno e silencioso rio tornar-se-ia visível. Eu e a diretora de turma sentimos um nó que nos induziu a alguns momentos de silêncio.
Por vezes, podemos ser felizes com tão pouco...
Naquele momento, tive vergonha de mim, não sabendo que ali se abria um novo caminho.