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[in]Sensato

Momentos de reflexão, opinião e entretenimento, ao deambular entre dois polos

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Momentos de reflexão, opinião e entretenimento, ao deambular entre dois polos

À conversa com o artista plástico João Galrão

 

 

   João Galrão (JG) é um dos mais conhecidos artistas plásticos Portugueses. Formado pelo Ar. Co, em 2001, no Curso avançado de artes plásticas, a sua presença na internet faz-se sentir nas diferentes redes sociais.

 

 

João Galrão na Vernissage

 

 

 

PP: — De onde surgiu o teu interesse pelas artes?

JG: — O meu interesse pelas artes surgiu muito cedo, ainda em criança, talvez de forma inesperada. Era o melhor aluno da minha turma, a desenho. Mais tarde, já na adolescência, trabalhei numa fábrica de mármore, a bojardar pedra e a polir balaústres. Aqui tive o meu primeiro contacto com outra parte da matéria-prima. Anos depois, apesar de ter andado perdido na área de contabilidade, por insistência materna, iniciei um curso profissional de restauro do património, onde tive contacto com vários outros materiais e de onde surgiu este bichinho mais forte pela arte. Comecei a levá-la mais a sério, iniciando em seguida o curso superior em artes plásticas (Ar.co).

 

Obra de João Galrão

 

 

PP: — Quais são as principais dificuldades com que te deparas, como artista, no nosso país?

JG: — Umas das maiores dificuldades é sem duvida a financeira, pois temos visibilidade, mas não um ordenado conducente, ao fim do mês. Vivemos num país onde se paga 800€ por um telemóvel, o que já acham caro para uma obra de arte. Também acho que a imprensa nacional se mostra inerte. Ao expor numa coletiva, num Museu conhecido, como o do Chiado, nenhum jornalista teceu qualquer critica ou comentou as minhas peças. Como já referi, o nome é uma sorte, mas gostaria de ver uma abordagem mais profunda da mesma, é o país que temos.

 

Obra de João Galrão

 

 

PP: — Como artista plástico, és um dos que maior irreverência tem demonstrado ao longo dos anos, chegando mesmo a desenvolver um projeto de homoerotismo. Em que consiste e qual o impacto causado junto do público português e estrangeiro?

JG: — O meu trabalho dentro do homoerotismo nasceu com a coletiva Afrontamentos, da qual sou curador. Já realizamos 7 colectivas ao longo destes anos, tendo iniciado com este projeto algumas colagens baseadas em fotografias de autorretratos nas quais interpretei personagens porno, das quais surgiram a minha personagem Gato Bravo e mais tarde a Lady Pink. De há alguns anos para cá, divulgo este meu trabalho no meu blog pessoal, no Tumblr e desenvolvi a par das colagens, alguns trabalhos de fotografia digital com um toque de pintura e fotografia com outros modelos, centrando a preocupação na fotografia e não tanto na autorrepresentação. Algum do meu trabalho acaba por ser conhecido pelo grande público, mas a maior parte prefiro que se mantenha dentro de uma esfera mais privada. O impacto ainda não percebi bem qual está a ser, mas acho que o público já percebeu que atuo na fronteira entre o sagrado e o profano. É nesta abordagem que me gosto de situar, desde quando transformo o espaço com escultura e o torno contemplativo ou crie situações em que o artista se apresenta despido e em poses eróticas, trabalhando dentro da foto performance. Este erotismo também acontece dentro do trabalho escultural, mas é mais evidente e agressivo dentro da fotografia e colagens.

 

De João Galrão

 

 

PP: — Para finalizar, uma provocação: “Os portugueses são sexualmente incultos”?

JG: — Acho que no geral não, mas fugindo dentro dos centros urbanos ainda há muitos “macaquinhos na cabeça”. O que ainda mais me choca é ver alguns pais expulsarem os seus filhos de casa, alguns ainda sem atingir a idade adulta, pelo simples facto de assumirem a sua homossexualidade. Isto é triste e revoltante. Não devia acontecer nos dias de hoje, mas tenho constatado vários casos. Acho que os portugueses e o resto do mundo devem começar a olhar as pessoas pelas suas qualidades, pelo que são e fazem, e não pelo que gostam e fazem entre quatro paredes. Ainda somos muito primitivos como sociedade e pouco tolerantes.

 

 

Fotografias gentilmente cedidas pelo artista plástico João Galrão