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[in]Sensato

Momentos de reflexão, opinião, crítica e entretenimento

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Momentos de reflexão, opinião, crítica e entretenimento

A mãe faz anos e esta é diferente de muitas

Junho 09, 2018

P. P.

Postal de Aniversário by PP

 

 

Não é fácil escrever a respeito da minha mãe.

Nem todos parecem abençoados nesta vida.

 

   O pai, um GNR que tudo gastava em amantes e na bebida, nada depositou no futuro das filhas. Como tal, a mãe, de quem agora é cuidadora, foi mãe e pai ao mesmo tempo. O ambiente de violência doméstica sempre a envergonhou pelo que talvez por isso tenha acabado por casar cedo, com o único namorado. 

 

   Mãe aos 19 anos, não estava preparada para um marido com traumas de guerra. Quem é que neste país estaria? Algo que soubemos bem tarde, quando começou-se a falar das consequências psicológicas dos ex-combatentes do Ultramar.. Como tal, também ela foi vítima de violência doméstica, inclusive quando com o filho portador de deficiência nos braços, perante os sogros que o e a abnegavam, procurando incendiar a relação. O bebé acabou por morrer. Já ela, quase perdeu a voz, com a paralisação das cordas vocais. Nem todos choramos...

Foi então que da casa dos sogros, onde pagavam uma renda elevada para a época e ainda consumíveis, o casal acabou por ir viver para uma pequena casa, de parcas condições. Aí fui concebido e ainda lá vivi alguns anos da 1.ª infância. Entretanto, na Alemanha, o meu pai trabalhou na Mercedes Benz, por forma a ter a sua própria casa. Um erro. Não devemos apostar tudo numa casa, numa grande casa. Tudo sofre alterações, algumas das quais nefastas. 

 

Talvez com a pequena "casita" tenhamos aprendido que não é preciso muito para sermos felizes. Em todo o percurso, sempre a seu lado, a minha madrinha e a filha, minha prima, de quem já vos apresentei algumas obras de arte. A irmã, personagem que venerei até aos meus 19 anos, estabeleceu uma relação sem amor, a não ser pelo próprio umbigo. Por vezes, o nosso coração impede-nos de ler os olhos dos outros e de acreditar no óbvio.

 

   Em 1981, no intuito de acompanhar a meu percurso escolar e com o receio de que me tornasse como o meu avó, eis que o meu pai veio para Portugal. Foram postas de lado as hipóteses de todos irmos viver para a Alemanha ou eu ficar em Portugal, com os avós, uma vez que ela temia que eu viesse a passar pelo que vivenciou até casar. Na Alemanha, com as regras de então, não sofreríamos muito do que o destino nos reservou, destacando a minha componente pessoal e social.

 

   Já em 1982, quando ainda poucas mulheres portuguesas trabalhavam fora de casa, eis que iniciou funções num matadouro, no qual o meu pai era responsável pelos serviço levados a cabo por mecânicos e motoristas. Quando aborrecido com o trabalho, ambos tremíamos. Sim, vi o meu pai bater na minha mãe, assim como muitas vezes levei, sem nada de errado ter feito e fui humilhado. A humilhação causar uma dor superior às agressões físicas, dado perpetuar-se. Ela, com o ambiente de um matadouro, ditou algumas das sentenças ao nível da sua saúde.

 

   Com falta de vaidade, a comida  foi sempre a sua libertação, algo que herdei. Quer dizer, no que à vaidade diz respeito, no meu caso, esta começou a morrer, lentamente, em 2009. Todos devemos alimentar o nosso lado extravagante, de prazeres, sem olhar aos ecos ocos e cínicos de alguns séquitos. O trabalho no campo, o contacto com a natureza e animais relaxavam-na. Sempre se sacrificou por mim.

 

   Mudadas algumas variáveis no contexto familiar, dado o meu crescimento, presenciamos o desemprego na família, sem que eu soubesse que tinha direito a bolsa de estudo. Tal uniu-nos. Sempre comprámos os bens a pronto e por vezes, dividíamos o custo de algo mais dispendioso. Entretanto, aprendi que amigos são de facto aqueles que permanecem nas horas difícieis. No entanto, admito sempre ter disfarçado e até representado, uma vez que "ter pena é não gostar de alguém".

 

   A sua submissão e anulação das vontades foram a sua imagem de marca. Todos devemos ousar, negociando os limites com a pessoa amada ou portadora de ciúmes doentios, que mais não são do que "falta de confiança em si próprio". Sei que, naqueles tempos, não se falava em traumas de guerra e ela não pretendia alimentar discussões semelhantes às que presenciara até casar, ... O mesmo já tinha feito a mãe, esta com tantas razões para divorciar-se, mas sempre pos em primeiro lugar as filhas. Já eu, perdi-me. A ansiedade crónica e a depressão vestiram-me com seus lençóis encardidos.

 

Quando comecei a trabalhar muito mudou. Ou pelo menos alguma coisa, dadas as dificuldades nas colocações, o mês de setembro sem trabalhar e com futuro incerto, sem qualquer contagem do tempo de serviço ou subsídio de desemprego. Assim, passamos 4 anos. Todavia, tornou-se mais fácil mimá-la. Difícil mesmo foi perder a fobia da condução. 

 

   Em 2011 veio a Doença de Alzheimer da minha avó. Sem qualquer apoio da irmã (onde está mesmo o iogurte que esta lhe trouxe até à data?) e acamada, transformamos o meu escritório num quarto onde a acolhemos. Os procedimentos para se tornar sua tutora, entre outros aspetos, foram de tal forma infernizados por quem devia amar a minha avó... Um ano depois, foi diagnostico um tumor numa glândula salivar da minha mãe. Nesta fase, apesar de colocado a 110 km de casa, eu e o meu pai, com a ajuda de uma senhora, conseguimos levar avante os cuidados essenciais junto da minha avó. As notícias dos progressos eram-me feitas chegar pela minha prima, sobrinha do meu pai, uma vez que o homem forte e duro, afinal não o era. As nossas máscaras caem com o tempo ou temos que mudá-las.

   Esta foi uma fase de mudança para a minha progenitora. De forma alguma pela positiva. Nunca se libertou dos fantasmas do período durante o qual esteve entubada, no aspeto monstruoso que foi melhorando com o decorrer do tempo, graças a um excelente cirurgião que a acompanhou, o magníco Dr. Canas. O facto de não poder usar prótese dentária e um pequeno declive no canto dos lábios esquerdos, o qual deve ver ampliado, geraram complexos em quem não os tinha. Quem sou eu para criticar?

   Passado um ano, eis-nos perante o diagnóstico do cancro do meu pai, mieloma múltiplo. Não escondi o que o futuro nos e lhe reservava. Pelo contrário, escondemo-lo dele. Foram dias de intenso sofrimento para quem não estava habituado a mentir ou ocultar a realidade, no seio familiar. Os dias seus dias, a caminho da morte, foram repletos de sangue, feridas, gemidos estridentes, médicos que não davam uma palavra de alento e ainda ousavam mentir, desconhecendo a minha área de formação. E tanto há a dizer. Não imagino o estado do corpo que ela deve ter encontrado na morgue do hospital. Fez questão de o vestir... Qualquer filme de terror é menos assustador. Contudo, o corpo foi tratado e trabalhado e conseguimos realizar um funeral digno. Difícil foi o nosso processo de luto embora, se nada acontece por acaso, a minha avó tenha sido o nosso estímulo, durante estes três anos, dado estar totalmente de nós. 

 

   Desde então, pelo menos 1 vez por ano, eis-nos perante um novo "susto" e o receio de novo cancro. 

   Acredito que não tenha sido o filho esperado/desejado e sei não corresponder às expetativas. As imposições das colocações de professores levaram-me a não dar continuidade à família. Não posso esconder o receio de cometer erros pelos quais passei e outros aos quais assisti. A hereditariedade não deixa de ser um fenómeno complexo. Isto sem esquecer o domínio mental, implícito em tantos acontecimentos nefastos.

 

   Temos conseguido sobreviver, com dignidade e algum alento. Por vezes, deixámo-nos abater, sobretudo quando a minha avó piora. Não fazemos questão da presença de quem não venha por bem. Antes sós.

 

Em suma, tenho uma mãe resiliente 

 

A música escolhida para o seu dia está repleta de sofrimento, não só na história como nos acordes iniciais.

 

 

Preconceitos Inauditos para com a Doença Oncológica

Outubro 13, 2017

P. P.

 

 

 

   Quando o cancro entrou na minha casa, sem sequer pedir licença, de início atingiu a minha mãe. Pensávamos nós, mas isso é outra história. De início, o que soubemos vir a tratar-se de um tumor, foi confundido com uma borbulha e depois com um abcesso. Só que “este abcesso” não doía, movia-se e estava localizado junto da glândula salivar direita. Escusado será dizer que o diagnóstico não foi rápido.

 

 

9 dez 12 - 5 dias depois da remoção do tumor


   Naqueles tempos, a trabalhar a 110km de casa, desconhecia ter direito a Mobilidade por Doença (MPD), para apoio aos pais ou filhos. Continuei a lecionar, para lá daquela serra de nevoeiros densos e por vezes assustadores e de acessos nem sempre fáceis. Na Escola, apesar de efetivo, nada mudou. Não fossem os verdadeiros amigos, a minha Saúde teria atingido níveis miseráveis. Já há um ano tínhamos a nosso cuidado, acamada e totalmente dependente, a avó, doente de Alzheimer. Atualmente sei que muitas das diarreias que tive, alternadas com prisão de ventre não passaram de manifestações de ansiedade crónica e sensações de culpa, por não estar presente.

 

Avó 86 anos num momento de lucidez by PP

 

 

   Quando a mãe foi para o Hospital, aos fins de semana, com o pai, junto da avó demos o nosso melhor. Apenas uma senhora cuidava da mudança das fraldas e do banho e por sorte, a sobrinha do meu pai morava perto do Hospital, mantendo-nos informados. Sobretudo a mim, durante a semana.

 

 

 

Na luta contra o cancro, sinais já visíveis do do pai by PP

 

 


   Um ano passou. A leucemia do pai mantive-se estranha, de origem desconhecida. A médica especialista que o acompanhava deixou tanto a desejar. Não pelos sorrisos ou simpatia. Antes fosse o oposto: frontal e verdadeira. Passado um ano e um mês da operação da minha mãe, perante o relatório que esta recebera, referente ao meu pai, dados os meus parcos, ainda que suficientes conhecimentos, deparámo-nos perante a morte anunciada ou a probabilidade de 7 anos de vida, quase todos eles presos a uma cadeira de rodas, com avanços e retrocessos. Estávamos perante um cancro grave, designado Mieloma Múltiplo, que já vivia no seu corpo há uns 6 anos, sem qualquer diagnóstico até então.

 

   Eu, continuava na mesma Escola. Perdi “o chão”. Não digam que é bom ser filho único. Fui também eu, após o termos "enganado", mediante recomendação da médica de família, quem abriu a porta para aquilo com que se iria confrontar. Se soubessem o quanto essa semana foi terrível ou esse entreabrir da porta...

Constatei que pensava que todos tínhamos pais até que estes fizessem 70 e tal anos. Afinal, o meu foi pai cedo. Outra série de sonhos perdidos. Dei início a um luto antecipatório. Mal sabia o que estava para vir.

 


   Não foi na Escola que encontrei compreensão e conforto, mas nos amigos daquela região. A Paulinha e o Nando, frequentemente, aos fins de semana, encostavam-me "contra a parede" e levavam-me para casa deles encaixando-me na sua família. Caso contrário, eu era capaz de ficar dois a três dias na cama, a olhar para o nada, a pensar no futuro. Quantas vezes fiquei com a dispensa vazia tendo o supermercado ao lado!

 

   Ao longo do tempo, constatei, no bar da Escola, na hora do lanche, que alguns professores se afastavam de mim. Naturalmente, eu não seria a melhor pessoa para conversar, mas conseguia fazê-lo, até porque, quando no abismo, tranco-me em casa ou no quarto. Um dia ouvi: “Com tantos casos de cancro na família, ainda nos passa a doença”. Saliente-se que quem proferiu tais palavras tem formação académica.

 

Soubesse onde eu onde estou by PP

 

 

   Passados alguns dias, ocorreu uma situação que jamais esquecerei e admiro o autocontrole que consegui ter. Uma colega, em meu entender, de competência algo inusitada, procurou colocar os pais de uma turma contra mim, uma vez que, como é compreensível, perante a situação vivida eu faltava com frequência. Mas não deixava de parte o que me competia. As minhas aulas sempre foram coadjuvadas pela professora com mais tempo de serviço da escola, uma docente repleta de saberes, amiga e com postura, sendo que ambos constatávamos que os alunos não estavam empenhados. Perante os resultados da ficha de avaliação, tudo e mais alguma coisa passou a dever-se ao professor. Uma reunião desenrolou-se nas minhas costas. Curioso é que as afirmações proferidas por alguns dos pais mais descontrolados (não estive presente, mas as informações chegaram-me no próprio dia, por alguns pais preocupados) não iam ao encontro das dos alunos. Porque sempre lutei pela igualdade e justiça, e pouco me importa se o aluno é filho de um ministro ou de uma prostituta (sim, já tive ambos os casos) disse a um aluno “O mundo não gira à tua volta. Os professores, tal como tu, também sofrem. Também têm problemas. Por isso, quando fazes uma acusação, deves pensar naquilo que dizes e respetivas consequências”. Escusado será dizer que a mãe quis fazer parte dos meus parasitas intestinais, do couro cabeludo e sei lá do que mais. Com tantos problemas na minha cabeça, longe de casa, com fobia à condução, em risco de perder os pais, .... temos tempo para parasitas?


   O respeito pelo docente era tal que um dia, perante uma afirmação minha, a tal professora dos alunos respondeu-me “Não, tu não disseste isso. Estás a ficar com Alzheimer como a tua avó!”. Uma outra vez: “Com os cancros dos pais, certamente também terás."

 


   Todas as pessoas referidas têm formação académica superior. O que é feito dos valores, da cidadania, empatia,  solidariedade, entre outras? Como é que as transmitem aos alunos? Escusado será dizer que frente a diretor(a) sabem fingir. 

 

E você, já ouviu falar em casos semelhantes?


   Antes de lavrar este texto, tive conhecimento de um jovem cujo pai faleceu quando tinha 12 anos, vítima de doença oncológica. Também ele sofreu discriminação. Confesso que pensava ser caso único. Tentei entrevista-lo, mas só as minhas palavras, que dizem tão pouco, segundo ele, passados 10 anos, fazem-no sofrer. 


Partilhe as suas experiências, neste ou outro âmbito. Para tal, recorra ao meu endereço de correio eletrónico (perfil), por forma a lutarmos por um mundo melhor.

Livro | Vendedor de Lágrimas

Outubro 12, 2017

P. P.

 

Vendedor de Lágrimas de Paulo Guerra

 

 

 

 

   A publicação dos trabalhos de Paulo César levaram alguns leitores a questionarem-me acerca da aquisição do seu livro Vendedor de Lágrimas. Pois bem, a obra tem uma página no Facebook, através da qual podem contactar o autor.

 

Com a autorização do Paulo, que não utiliza o AO, deixo-vos as palavras iniciais deste Vendedor de Lágrimas.

 

 

 

Há anos que fotografo usando Paulo César como nome, desde sempre a paixão pela fotografia e também o acto de escrever fizeram parte de mim.

Quando escolhi o nome como fotógrafo optei apenas pelos meus nomes próprios, queria ser apenas eu, começar do zero, sem herança genética, sem passado, apenas presente e futuro.

Como escritor sou Paulo Nascimento Guerra, sou eu, com passado, presente e futuro, com a herança genética, com as memórias, com os esquecimentos, com todas as virtudes e todas as falhas destes anos desta vida.

Mas sempre eu, e todos os eus que vivem em mim.

Desde há muito que existe o sonho de ter um livro de textos.
Estes meses de pausa do início de 2016 fizeram-me ter tempo para escolher e rever textos escritos desde 2001. Concluí que devo direccionar mais a atenção, o tempo e a energia para mim, para as minhas coisas, para tornar os meus sonhos concretos e reais.

O nome "Vendedor de Lágrimas" surgiu há uns dois anos, sem eu saber o porquê, e sem ter no momento um texto que o justificasse, ou sequer, ter a noção de quem seria esse tal vendedor, ao escrever o texto descobri que sou eu o Vendedor de Lágrimas, o "que passa a vida a secá-las nos rostos dos outros"... E que "morrerei um dia afogado porque as limpo e as seco".

De início foi estranho, não tinha a noção de quem seria, mas o juntar das letras, o formar das palavras... As frases fizeram todo o sentido e sim... Sou eu o "protagonista" do meu livro, tal como devemos ser todos da nossa própria vida, os obreiros de nós mesmos.

Vivi uma vida emprestada nestes meses, esta que me acompanhou, preencheu e secou neste início de ano. É óbvio que existiu toda uma vida antes deste "empréstimo", existem e existirão muitos meses desta "nova" vida, a todas estou grato.
Estou grato por ter uma alma que, sem reclamações, se ajustou ás várias formas que o meu corpo assumiu na vida emprestada. Não sei como conseguiu tal ginástica, reduzindo-se e encaixando num corpo que eu não reconhecia de todo.

O meu segundo livro já tem nome: "Liturgia das Almas", gosto da ideia de alma, acredito apesar de não ser palpável, é algo que ninguém em concreto e absoluto consegue definir o que pode ser, e sobre o qual escrevo muitas vezes.
Deste primeiro retirei todos os textos onde a palavra alma aparecia.

Porquê o segundo livro com o nome de "Liturgia das Almas"? Não sei, tal como o "Vendedor de Lágrimas", o título veio até mim.

Sei que a escrita terá um papel importante nesta "nova" vida, sei que nesta minha caminhada, em que muitas vezes caminhar é voltar para trás e seguir um outro caminho, sempre haverá textos. De agora em diante deixarão de ser apenas meus, serão nossos, vossos.

Ambiciono que a minha escrita faça a diferença.

Espero que alguns textos vos façam ir aos vossos sótãos de memórias empoeiradas (de muitas delas só queremos o esquecimento), que com outros vos provoque "murros no estômago", por vos fazer sentir coisas que não queriam, mas também que vos façam sorrir, sonhar, e acima de tudo dar forças e querer, para conseguirem viver os vossos sonhos de peito cheio e de olhos abertos.

Num ápice tudo pode mudar, sei que desperdiçamos demasiado do nosso tempo com nadas, que fazemos os outros desperdiçar tempo, mas é fácil fazer mais. É fácil fazermos melhor. É fácil sermos melhores e uns pelos outros, sem egos inflamados, e umbigos do tamanho do mundo.

Somos nadas, e a imagem de que existem mais estrelas no céu do que grãos de areia em todas as praias do mundo, diz muito da nossa pequenez, e também da nossa grandeza. Esta é tanto maior quanto mais e melhor fizermos por nós e pelos outros, isto será seguramente um dos sentidos maiores do meu viver, pelo menos que seja destas minhas vidas.

Estou grato.
Dizem que o melhor que temos na vida são os amigos. É quase isso, o melhor só pode mesmo ser Nós mesmos... E todas as pessoas que trazemos no coração. Há as especiais, que até podem passar anos que continuam assim mesmo, especiais para nós, são aqueles que apelido de habitantes do meu coração, felizmente tenho muitos, nenhum sobra, nenhum faltará, haverá sempre espaço para todos aqueles que esta vida me trouxer, e também o desprendimento suficiente para deixar partir quem tiver de partir.

Tenho sorte, muita sorte, e estou grato à vida mesmo com todos os pesares.Grato à vida apesar das pausas, dos dissabores, dos contratempos, mas também de tantas coisas boas que me fazem sorrir.

Estou grato a todos, aos que me amam (a vossa presença nos momentos difíceis, seja de que modo for, seguramente torna os dias mais fáceis) e também muito aos outros, eu não quero ser como vocês, eu sou apenas o que sou, e sei que em cada dia quero ser melhor do que aquilo que já fui antes.

Estou grato à minha mãe, por tudo. Pela companhia, pelo amor, pelo afecto, pelas horas a dar-me a mão no hospital, pelo orgulho que tem em mim, pelos silêncios quanto ás coisas que não gosta, também grato pelos momentos maus. Estamos todos longe da perfeição, mas sei que está comigo, do mesmo modo incondicional que estou com ela.

Acredito que tudo na vida tem um propósito maior, mesmo que não seja tangível, nem entendamos o porquê, sei que esta vida "emprestada" que felizmente se desvanece fez com que este Vendedor de Lágrimas nascesse mais rapidamente.

Espero que gostem, se comovam. E que de uns quantos não gostem também, aguardo os comentários. Esse retorno será importante para mim.

A todos entrego estes meus textos, que a partir de agora são nossos.

Sejam gratos, façam a diferença.
Paulo Nascimento Guerra

 

Ela e as Bolas de Sabão

Julho 28, 2017

P. P.

   

soap-bubble-1873433_1920 @ Pixabay

 

 

 

 

   Ainda há pouco tempo, as bolas de sabão despertavam-lhe um sorriso.

 

- Que bonitas - dizia.

 

Seguramente, estas bolas de sabão não fizeram parte da sua infância, entre serras e ovelhas, com a Escola tão longe que acabou por não a frequentar. Além do trabalho, tinha de cuidar dos irmãos mais novos. As brincadeiras decorriam à beira rio e pela linha do caminho de ferro.

 

   Naqueles tempos, em plena década de 30, era tão raro ver-se, por aqueles montes de xisto, cabelos de ouro que muitas pessoas, com as suas malas, paravam nos caminhos, e queriam tocar-lhe nos fios de cabelo. Julgavam tratar-se do metal precioso, por todos ambicionado. Ela tinha medo de desconhecidos. Fora preparada para não confiar no bicho homem e respetivas intenções. 

 

   Frequentes eram as inundações, dada a subida das águas do rio. E o caudal tornava-o perigoso pois corria com raiva, escondendo aquelas rochas traidoras. Da aparente abundância, em pleno Estado Novo, num ápice ficava-se sem nada, à mercê de um Deus omnipotente. Um dia, ao dormir, não se apercebeu da roda de fogo que a rodeava, lançando vários braços em tons de vermelho laranja que a queriam diabolicamente abraçar. Os fios de ouro que cobriam a sua cabeça e deslizavam pelas costas deviam ser entregues ao seu mestre. Contudo, num ato de coragem, foi socorrida atempadamente. Da casa nada restou. Uma vez mais, sem nada. O rio ali ao lado e o caminho de ferro. Das cinzas, a família teve de renascer. Tempos em que o espírito de entreajuda e camaradagem predominavam, apesar dos nadas materialistas que se apontam à época.

 

   Estes momentos permaneceram no seu interior por mais de 8 décadas. Descobrimo-los ao associar factos, durante os longos períodos em que de si parece emergir uma outra pessoa, de voz forte e sempre desesperada. Durante tempos, as bolas de sabão e um creme de rosto foram acalmando este ser assustado ou apavorado.

 

   Com o decorrer do tempo, o esquecimento mais significativo. Agora, já não há fogo, cheias, incêndios, terrenos que se alagam, nem cremes ou bolas de sabão que a façam sorrir. À semelhança das suas memórias, também o seu corpo vai encolhendo e as frases dão lugar a palavras. Há o rebentar da bola de sabão, onde também nós permanecemos, numa ali ao lado, persistindo e alimentando a ilusão.

 

 

Estes são alguns fragmentos da vida da minha avó, Doente de Alzheimer

#doençadealzheimer

 

 

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