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[in]Sensato

Momentos de reflexão, opinião, crítica e entretenimento

03
Jun19

Alguém gostará de mim?

por P. P.

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    Tarde, junto à porta do laboratório.
O tempo, esse parece-me intemporal, mas constam pouco mais de 20 anos.
Uma aula terminada, um grupo/turma quase do meu nível etário.

Subitamente, encostada à parede, perdida no olhar, disse:
– Dizem que já não sou virgem. Alguém gostará de mim?
– O meu pai será sempre virgem. Nasceu em setembro! – respondi, brincando, ao tentar aliviar o olhar cuja barreira emocional nunca me permitiu ir além.


    Ainda encostada à parede, quase sem expressão facial e com aquele olhar triste, impenetrável e vazio, em resposta ao meu desafio “O que é para ti uma pessoa virgem?” retorquiu:
– Dizem que o meu pai me fez coisas e que agora não sou virgem. Assim, ninguém quererá ficar comigo. Acha que alguém gostará de mim?
– “Gostar” é muito mais do que uma condição. Certamente irás conhecer tantos homens e mulheres que gostarão de ti. Eu gosto de ti.
– No ano passado, a Prof.ª C. disse-me o mesmo.
– E não tem razão?


    Passaram-se os anos.
Casou, tem filhos e embora mais feliz do que quando mais nova, sinto algo estranho na sua escolha. Um homem que mais parece ter a idade do meu pai… Preconceito, talvez.

Em mim, a inusitada interrogação acerca da vida e do destino.

27
Mai19

Pães e Amor

por P. P.

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        Na cantina da Escola, durante o almoço, o professor apercebeu-se que a A. “roubava” pães.

   Abordou-a, reforçando que é preciso saber partilhar. Sugeriu que ficasse com alguns dos não consumidos, pedindo-lhe para que não esquecesse os outros meninos carenciados. No fim do dia, as assistentes operacionais, preparavam os pães, com carne, ou faziam marmitas discretas, para que, discretamente, eles as pudessem levar, para casa. Aquela seria a única refeição, ao chegarem a casa, até a manhã seguinte, já na Escola...

    Este professor era conhecedor da fome oculta e concomitantes comportamentos daqueles que pretendem "conservar a dignidade", tal como dizem.


    Ainda confuso com o ocorrido, o professor decidiu falar com a D.T., no sentido de, em conjunto, conseguirem apurar o que se passava com a A. Para a Escola, ela trazia lanches dignos de uma pré-adolescente e os pais evidenciavam uma obesidade normalmente atribuída aos  consumidores de fast food. A realidade fez-se sentir.

 

    A. levava os pães para que, à noite, os seus pais pudessem comer. Ambos portadores de deficiência e sem aquele tipo de “rendimento”, geralmente atribuído a quem nada faz, cuidavam da filha com todo o amor e cuidado, com muitas restrições. Já muitos “normais”…

 

    Isto é amor. 

15
Mai19

Aquela ereção - o que é isto?

por P. P.

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    Estava eu sentado e calmo, na sala de aula, quando o meu pénis decidiu crescer. "Agora? O que é que eu faço? Só tenho 10 anos."

    A meu lado, a menina à qual os professores frequentemente dizem "Calma, C.! Controla as hormonas". Não sei o que são hormonas, mas ela é tão gira. Então quando salta e deixa que... Isto não interessa.

    Não sei ao certo, mas algo levou-me a mostrar a minha "preocupação" e volume nas calças àquela miúda tão gira. Para meu azar, o professor apercebeu-se. De acordo com a expressão facial dele, julgo que ficou em dúvida a respeito do que eu estava a exibir. Coitado, só porque é mais velho deve pensar que tem uma pila maior com a minha!... Não me parece. Se assim fosse, daqueles calções rasgados sairia um "nariz".

 

    Fiquei confuso quando disse-me que tudo o que estava a acontecer comigo é normal, na pré e na adolescência. Passarei a andar com dois narizes, um mais desenvolvido, podendo exibi-lo a todas as meninas da escola. 

 

    Não pude acreditar quando, uma vez mais, o professor apercebeu-se que eu continuava a mostrar aquela elevação à C. Foi então que, sem que os outros entendessem, disse-me que existiam formas de disfarçar algo ... tão agradável. Comecei por cruzar a perna, tal como ele sugeriu, e quando chamado ao quadro, tentei puxar a minha camisola até àquela região. Só que ela era curta! Quase que me senti a brincar com "uma fralda". Mas eles disse-me "Está à vontade pois não se nota nada". E os meus colegas sem compreenderem o nosso diálogo. Se todos oa rapazes têm aquilo que ele chamou "ereção", inicialmente difícil de controlar, passarei a andar numa permanente luta de espadas com os meus colegas? Não, não pode ser. Eu só quero a C. Ela é aquela paixão... Minha e de mais ninguém!

12
Mai19

No teste de Ciências de alguns anos atrás

por P. P.

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    Esta é uma situação verídica, da qual o(a) aluno(a), agora adulto, tem conhecimento do meu registo.

    Da prova de avaliação de ciências naturais 6, que apliquei naquele ano, constava a pergunta:

"Apresente, uma razão pela qual a progenitora não deve fumar, justificando-a."

Resposta: - "O fumo passa para o filho e quanto mais ela fumar, mais moreno o filho ficará."

    Logo pensei, não contendo uma gargalhada (sim, naqueles tempos ainda ria): "A minha mãe nem fumadora passiva foi!"

 

09
Mai19

A preto e branco

por P. P.

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    Por vezes, insistem em pintar-nos de preto e branco. Enquanto isso, nós permanecemos na nossa vida, com as nossas circunstâncias. Parece-me que, nos nossos dias, a falta de egocentrismo é prejudicial. Inusitado, mas real. Inclusive nas nossas áreas de conhecimento e profissionais.

  Estranho, pois, no meu caso, em termos de interesses e profissionais, a ciência é um conhecimento em permanente atualização, assim como as metodologias a utilizar. A discussão, fonte salutar para o progresso quando entre elementos com interesses semelhantes, surte efeitos. Com outros intervenientes, gera-se uma instabilidade insana. Isto porque, "eu sei mais do que tu", "eu sou melhor do que tu" e a eterna mentira do "eu faço"; sem que tal se verifique.
Será possível ensinar sem explorar as temáticas, refletir nos procedimentos, tirar dúvidas?.... Ah, as vidas dos nossos dias são uma novela: "Eu sei, posso e mando!"


    Lamento, mas este não é o meu mundo. Não, não sou melhor do que ninguém e muito aprendo com os alunos, independentemente do nível etário.

05
Mai19

Para uma mãe

por P. P.

De um aluno do 3.o ano

 

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    No início de um caminho repleto de aventuras e magia, pela escrita criativa, bálsamo de tantas mágoas, partilho convosco dois momentos dos meus alunos de apoio. A cor, nada mais do que sugestões. O traço vermelho pode tornar-se agressivo, e a falta de diálogo com os potenciais jovens escritores, castradora. Nem eu nem eles estamos corretos. Importa o espírito crítico e aquilo que se diz. Em simultâneo, o enriquecimento

     Nos rascunhos de muitos dos discentes, encontrei momentos válidos e belos para dar a conhecer, mas o tempo não era muito. Como tal, estes dois, representam todos aqueles que deambularam e registaram sentimentos sem amarras ao materialismo supérfulo e  doentio. Afinal, uma mãe é "um ninho", o "conforto", a "compreensão" e a mulher pela qual, desde cedo, nos apaixonamos. "Fonte de luz e de amor", de encantos ímpares, com capacidades inacessíveis ao progenitor, que também é capaz de educar, amar e dar a vida, por um amor maior.

 

Feliz dia da mãe!

O meu agradecimento ao professor titular, capaz de deixar-me voar e por, também ele, valorizar os afetos e a discussão.

 

 

 

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