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[in]Sensato

Momentos [in] sensatos de reflexão, opinião e entretenimento

O preconceito e a depressão

   Confesso que não mais tinha-me ocorrido escrever acerca da depressão. Esta é uma perturbação mencionada na DSM V e nas que a antecederam. Muitas vezes a referi e revelei os seus estados ao longo de publicações no Sonhos Desencontrados.

 

Aquele Dia by PP com Samsung S7 Edge

 

 

 

   Se de início não soube reagir à morte do meu pai, com cancro terminal, dando lugar a esta perturbação com burnout associado, do meu contexto faziam e fazem parte a mãe, doente oncológica e a avó, em estado quase terminal da Doença de Alzheimer. A escrever e a errar, entendi que nos caminhos de Alice no País das Maravilhas, tinha de encontrar um caminho. Aceitei que muitas vezes me perco, dado fazer parte de mim, por um lado, dada a herança genética e por outro, devido a acontecimentos na infância e adolescência. Aceitei ainda, embora nem sempre seja fácil que, por vezes, apresento períodos algo sombrios, seguidos dos "iluminados". Sou assim, não posso nem devo ser parasita de outros e tenho que saber viver com as minhas deficiências. Sim, todos somos portadores de deficiências. Não se considerem a última bolacha do pacote. Pelo exposto, e ao trabalhar com crianças portadoras de autismo associado à deficiência mental, dos 5 aos 14 anos, seguindo-se o 1.º CEB, senti uma luz há muito perdida. Depressão deixou de fazer parte do meu quotidiano. 

 

   Refira-se que, neste ano, o Dia da Saúde, a 7 de abril, por indicação da OMS, teve como lema Depressão Vamos Falar. Tal é o crescimento do número de portadores da doença... e elementos preconceituosos em relação à perturbação mencionada. Com que direito? Com que abordagem científica? 

 

   Aqui não vou escrever acerca da sintomatologia, causas, tratamento, prevenção, etc desta doença, nem vou continuar a despir-me perante vós. Queria eu ser a última bolacha do pacote, mas não o sou! Muitos documentos estão disponíveis  no portal SNS e explicações, acessíveis a todos, encontram-se na Oficina da Psicologia. Basta clicar nas hiperligações. Ambos os portais devem ser consultados, dada a informação cabal.

 

   Bem, afinal terei que me despir um pouco mais... Não se preocupem. Evitarei mostrar as gorduras localizadas e outros elementos que não me permitem enquadrar nos grupos dos bonzões ou dos bonitões

A minha madrugada do dia 9 foi má. Acordei com sentimentos depressivos. Isto tem vindo a ocorrer há algum tempo. Aquele apetite excessivo e descontextualizado, os pesadelos, a autocondenação por não ter resistido à gula... Porém, é importante saber que estes estados ou quando nos sentimos deprimidos, tal não significa depressão. Pode sim tratar-se de  estados "conducentes a". 

No dia 10, numa conversa pelo Whatsapp, com alguém que tenho vindo a travar conhecimento, desenvolveu-se o seguinte diálogo.

 

Conversa com R no whatsapp - arquivo pessoal

 

Uma vez que a visualização da imagem não é a ideal, destaco as ideias principais, com correção ortográfica.

 

 

-  Depressão é um conceito que eu não entendo! 

Expliquei, de forma bem simples, em que consiste.

Surgiu a resposta:

- Eu chamo a isso falta de ocupação ou em que pensar.
Não compreendo esse estado de estar. Eu acho que o estado de cada um é vontade própria.
Um "depressivo" quer estar assim... condeno!

Novamente tentei reforçar a minha explicação anterior, alertando para a importância da projeção para compreendermos os outros.

- O que eu vejo num depressivo ou é falta de ocupação, ou falta de juízo!

Respondi "lamento", ao que, após leitura da minha resposta, fui bloqueado.

 

   Não houve tentativa em compreender, capacidade de projeção e o terminus da conversa foi de todo infantil: o bloqueio.

Confesso ter ficado chocado com os argumentos infundamentados de alguém ainda novo, na casa dos trinta, e a não tentativa em aprender/abrir horizontes. Esta postura assume um lado aberrante pois, perante uma pessoa mais sensível, como já fui no passado, doente ou bem mais doente (sobretudo estas!), o agravamento do seu estado fazer-se-ia sentir de imediato. Sem consequências. Afinal, o caminho mais fácil é abandonar ou bloquear.

Não é por acaso que 13 Reasons Why é um livro e série para educadores, pais e filhos. A este respeito escreverei futuramente.

 

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Hoje

Hoje é dia de retomar a máscara que esconde em si uma realidade não partilhada.

Urge sorrir, quando a vontade é a de apresentar uma expressão cerrada, que faz jus ao coração instável e aos sentimentos bloqueados. 

Hoje reinício a semana. Esgoto o inútil corretor de olheiras. Talvez seja impossível esconder o cansaço de anos! Preciso das férias que tive uma só vez, mas que não sei repetir. Até quando? Certamente enquanto houverem homens sós.

 

Contrastes by PP

 

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A noite

 

investigador

Animação de Randy Bishop

 

 

As manhãs nem sempre têm cor. Surgem desajustadas do meu ser, amante da noite.

Mas nem sempre a noite vem. Às vezes, quando tal não acontece, turbulenta preenche todo o meu universo, manipulando-o. Instável, é nas ondas melódicas que te encontro. Um encontro fugaz,adjacente aos lados do pouco provável e do impossível.

Há momentos assim! A efusão do sonho destilado de uma realidade cruel.

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Ela

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     Eis-me aqui, entre quatro paredes que espelham reflexos.

    Subitamente o silêncio foi interrompido por uma voz histérica, bastante audível, num Português parco e conturbado.

   Lá fora, do outro lado, separados pela parede transparente, percorro-a. Pega no cigarro de forma desafiante, entre olhares e sorrisos que não sei se dotados de sensualidade ou da inocência há muito perdida. Ambas, quem sabe! Lábios carnudos, tez clara e cabelos fortes. Subitamente a sua atenção foca-se na mesa de um grupo de homens. As presas ideais. Apura o olhar, ajeita os cabelos e mete conversa. Aproxima-se e intromete-se apropriando-se de palavras que não lhe pertencem. O vício deve ser alimentado. 

    Não descodifico as palavras, de todo inaudíveis. Constato que pela diferença de idades, os senhores sentem-se incomodados com aquela presença não solicitada. 

Aqui dentro, persiste a tentativa de falar Português, num eco evasivo e provocante.

Lá fora, a vida real. Na procura da felicidade, já que vida "há só uma", o prazer prevalece face à razão.

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Num corpo sem alma

De Kim Niles

 

 

Queria poder usar uma flor e um laço azul.

 

Utilizar um batom de cor suave e ligeira, capaz de salientar os meus lábios que dizem carnudos e sensuais. Passar o lápis preto nos olhos, acentuando o mistério do meu olhar.

Queria ser livre. Nada mais! Utilizar cores que me alegrem sem sujeitar-me a comentários depreciativos ou integrantes de minoriais às quais nem sei se pertenço. 

 

Não, não procuro cores berrantes ou apelativas. Somente melhorar e corrigir o possível. Um homem não deve ser avalido pelos seus atos? De que importa um pouco de vaidade ou qualquer semelhança com o género feminino?

 

Perco a alma, sobretudo porque não amo.

Se não amo também não consigo deixar-me amar. 

Os anos passam e eu não consiguo libertar-me, deixando se ser um corpo sem alma, despersonalizado e com poucas histórias para contar. 

Neste corpo sem alma, a tonalidade do batom talvez reaviva o momento em que entreguei-me à escuridão.

 

Ilustração de Kim Niles @ Pinterest

 

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