Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

[in]Sensato

Momentos de reflexão, opinião, crítica e entretenimento

20
Mar19

As Mãos do Meu Pai

por P. P.

"As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos…

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida…
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma…”

 

Mário Quintana, As mãos de meu pai

 

 

04
Mar19

Interpretação da letra Telemóveis de Conan Osiris

por P. P.

i-phone-2547677_1920 - Imagem por nickypung na Pixabay

Imagem por nickypung na Pixabay

 

    Nesta publicação procuro interpretar, de forma pessoal, o tema vencedor do Festival da Canção 2019, Telemóveis, de Conan Osiris, sem conhecer a original. Em torno do intérprete e da letra muito se tem escrito de bom e de mau. De acordo com Miguel Esteves Cardoso, no artigo de opinião, do Público, Viva Conan Osiris, em 21 de fevereiro, "(...) Ouvi-lo cantar é como assistir a uma discussão interminável e irresolúvel sobre as origens do fado: está lá o canto cigano, o canto andaluz, o canto magrebino. Estão lá os visigodos, os romanos e os mouros." Recordemos a letra da música vencedora, com 12 pontos do público e 12 do júri.

 

 

Eu parti o telemóvel
A tentar ligar para o céu
Pra saber se eu mato a saudade
Ou quem morre sou eu


Quem mata quem
Quem mata quem
Mata?
Quem mata quem?
Nem eu sei
Quando eu souber, eu não ligo a mais ninguém


Se a vida ligar
Se a vida mandar mensagem
Se ela não parar
E tu não tiveres coragem de atender
Tu já sabes o que é que vai acontecer

 

Eu vou descer a minha escada
Vou estragar o telemóvel
O telele
Eu vou partir o telemóvel
O teu e o meu
Eu vou estragar o telemóvel
Quero viver e escangalhar o telemóvel


E se eu partir o telemóvel?
Eu só parto aquilo que é meu
Tou pra ver se a saudade morre
Vai na volta quem morre sou eu


Quem mata quem
Mata?
Eu nem sei
A chibaria nunca viu nascer ninguém


Eu partia telemóveis
Mas eu nunca mais parto o meu
Eu sei que a saudade tá morta
Quem mandou a flecha fui eu


Quem mandou a flecha fui eu


Fui eu

 

    O telemóvel tem vindo a ocupar um papel primordial na comunicação entre os homens. Todos procuramos compreender o que acontece connosco, mas nem sempre somos bem sucedidos. Algumas verdades e evidências estão dentro de nós, não nos sendo imediatamente percetíveis, bem como a outros recetores. A saudade é, em meu entender, algo cuja essência somente compreendemos após a morte de um ou mais entes queridos. O seu poder é muito abrangente podendo "matar-nos". Neste perspetiva, o compositor pode referir-se a algum ente querido, como é o caso do pai, que praticamente não conheceu, fruto da morte precoce por problemas de toxicodependência.  

    Na 2.ª e 3.ª estrofes deparamo-nos com a incerteza de quem pode vencer a batalha entre a saudade e a vida. Com receio do que pode resultar desta conexão, antevendo uma resposta que lhe parece óbvia, a decisão de destruir o meio de comunicação, não querendo que a saudade o e nos destrua, ainda que incerto a respeito desta possibilidade ("Tou pra ver se a saudade morre/ Vai na volta quem morre sou eu"). Mas acusar "nunca viu ninguém nascer". Como tal, na última estrofe, o compositor conclui que foi capaz de matá-la, dada a sua iniciativa, evitando o oposto. De tal, revela-se orgulhoso, como expressa nos dois últimos versos "Quem mandou a flecha fui eu/ Fui eu". Assim, de nada adianta partir outros telemóveis: de pouco adianta conhecer a saudade, mas sim saber como destruí-la.

Pesquisar

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Sussure-nos

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Direitos

Ainda que procure uma utilização cautelosa e não abusiva de textos, imagens e sonoridades, poderá haver lugar à utilização indevida de obras objeto de direitos de autor. Contudo, apesar do recurso às hiperligações de origem, sempre que a legislação o implique ou seja devidamente informado, de imediato procederei a reajustes. Os textos e fotografias sem referência bibliográfica são da minha autoria.

Wook