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[in]Sensato

Momentos [in] sensatos de reflexão, opinião e entretenimento

Ela e as Bolas de Sabão

   

soap-bubble-1873433_1920 @ Pixabay

 

 

 

 

   Ainda há pouco tempo, as bolas de sabão despertavam-lhe um sorriso.

 

- Que bonitas - dizia.

 

Seguramente, estas bolas de sabão não fizeram parte da sua infância, entre serras e ovelhas, com a Escola tão longe que acabou por não a frequentar. Além do trabalho, tinha de cuidar dos irmãos mais novos. As brincadeiras decorriam à beira rio e pela linha do caminho de ferro.

 

   Naqueles tempos, em plena década de 30, era tão raro ver-se, por aqueles montes de xisto, cabelos de ouro que muitas pessoas, com as suas malas, paravam nos caminhos, e queriam tocar-lhe nos fios de cabelo. Julgavam tratar-se do metal precioso, por todos ambicionado. Ela tinha medo de desconhecidos. Fora preparada para não confiar no bicho homem e respetivas intenções. 

 

   Frequentes eram as inundações, dada a subida das águas do rio. E o caudal tornava-o perigoso pois corria com raiva, escondendo aquelas rochas traidoras. Da aparente abundância, em pleno Estado Novo, num ápice ficava-se sem nada, à mercê de um Deus omnipotente. Um dia, ao dormir, não se apercebeu da roda de fogo que a rodeava, lançando vários braços em tons de vermelho laranja que a queriam diabolicamente abraçar. Os fios de ouro que cobriam a sua cabeça e deslizavam pelas costas deviam ser entregues ao seu mestre. Contudo, num ato de coragem, foi socorrida atempadamente. Da casa nada restou. Uma vez mais, sem nada. O rio ali ao lado e o caminho de ferro. Das cinzas, a família teve de renascer. Tempos em que o espírito de entreajuda e camaradagem predominavam, apesar dos nadas materialistas que se apontam à época.

 

   Estes momentos permaneceram no seu interior por mais de 8 décadas. Descobrimo-los ao associar factos, durante os longos períodos em que de si parece emergir uma outra pessoa, de voz forte e sempre desesperada. Durante tempos, as bolas de sabão e um creme de rosto foram acalmando este ser assustado ou apavorado.

 

   Com o decorrer do tempo, o esquecimento mais significativo. Agora, já não há fogo, cheias, incêndios, terrenos que se alagam, nem cremes ou bolas de sabão que a façam sorrir. À semelhança das suas memórias, também o seu corpo vai encolhendo e as frases dão lugar a palavras. Há o rebentar da bola de sabão, onde também nós permanecemos, numa ali ao lado, persistindo e alimentando a ilusão.

 

 

Estes são alguns fragmentos da vida da minha avó, Doente de Alzheimer

#doençadealzheimer

 

 

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Poesia - Eu e Ela

flowers-677371 @ Pixabay

 

 

 

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou apagãos, via à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavaleiro de Faublas...

 

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

 

 

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O preconceito e a depressão

   Confesso que não mais tinha-me ocorrido escrever acerca da depressão. Esta é uma perturbação mencionada na DSM V e nas que a antecederam. Muitas vezes a referi e revelei os seus estados ao longo de publicações no Sonhos Desencontrados.

 

Aquele Dia by PP com Samsung S7 Edge

 

 

 

   Se de início não soube reagir à morte do meu pai, com cancro terminal, dando lugar a esta perturbação com burnout associado, do meu contexto faziam e fazem parte a mãe, doente oncológica e a avó, em estado quase terminal da Doença de Alzheimer. A escrever e a errar, entendi que nos caminhos de Alice no País das Maravilhas, tinha de encontrar um caminho. Aceitei que muitas vezes me perco, dado fazer parte de mim, por um lado, dada a herança genética e por outro, devido a acontecimentos na infância e adolescência. Aceitei ainda, embora nem sempre seja fácil que, por vezes, apresento períodos algo sombrios, seguidos dos "iluminados". Sou assim, não posso nem devo ser parasita de outros e tenho que saber viver com as minhas deficiências. Sim, todos somos portadores de deficiências. Não se considerem a última bolacha do pacote. Pelo exposto, e ao trabalhar com crianças portadoras de autismo associado à deficiência mental, dos 5 aos 14 anos, seguindo-se o 1.º CEB, senti uma luz há muito perdida. Depressão deixou de fazer parte do meu quotidiano. 

 

   Refira-se que, neste ano, o Dia da Saúde, a 7 de abril, por indicação da OMS, teve como lema Depressão Vamos Falar. Tal é o crescimento do número de portadores da doença... e elementos preconceituosos em relação à perturbação mencionada. Com que direito? Com que abordagem científica? 

 

   Aqui não vou escrever acerca da sintomatologia, causas, tratamento, prevenção, etc desta doença, nem vou continuar a despir-me perante vós. Queria eu ser a última bolacha do pacote, mas não o sou! Muitos documentos estão disponíveis  no portal SNS e explicações, acessíveis a todos, encontram-se na Oficina da Psicologia. Basta clicar nas hiperligações. Ambos os portais devem ser consultados, dada a informação cabal.

 

   Bem, afinal terei que me despir um pouco mais... Não se preocupem. Evitarei mostrar as gorduras localizadas e outros elementos que não me permitem enquadrar nos grupos dos bonzões ou dos bonitões

A minha madrugada do dia 9 foi má. Acordei com sentimentos depressivos. Isto tem vindo a ocorrer há algum tempo. Aquele apetite excessivo e descontextualizado, os pesadelos, a autocondenação por não ter resistido à gula... Porém, é importante saber que estes estados ou quando nos sentimos deprimidos, tal não significa depressão. Pode sim tratar-se de  estados "conducentes a". 

No dia 10, numa conversa pelo Whatsapp, com alguém que tenho vindo a travar conhecimento, desenvolveu-se o seguinte diálogo.

 

Conversa com R no whatsapp - arquivo pessoal

 

Uma vez que a visualização da imagem não é a ideal, destaco as ideias principais, com correção ortográfica.

 

 

-  Depressão é um conceito que eu não entendo! 

Expliquei, de forma bem simples, em que consiste.

Surgiu a resposta:

- Eu chamo a isso falta de ocupação ou em que pensar.
Não compreendo esse estado de estar. Eu acho que o estado de cada um é vontade própria.
Um "depressivo" quer estar assim... condeno!

Novamente tentei reforçar a minha explicação anterior, alertando para a importância da projeção para compreendermos os outros.

- O que eu vejo num depressivo ou é falta de ocupação, ou falta de juízo!

Respondi "lamento", ao que, após leitura da minha resposta, fui bloqueado.

 

   Não houve tentativa em compreender, capacidade de projeção e o terminus da conversa foi de todo infantil: o bloqueio.

Confesso ter ficado chocado com os argumentos infundamentados de alguém ainda novo, na casa dos trinta, e a não tentativa em aprender/abrir horizontes. Esta postura assume um lado aberrante pois, perante uma pessoa mais sensível, como já fui no passado, doente ou bem mais doente (sobretudo estas!), o agravamento do seu estado fazer-se-ia sentir de imediato. Sem consequências. Afinal, o caminho mais fácil é abandonar ou bloquear.

Não é por acaso que 13 Reasons Why é um livro e série para educadores, pais e filhos. A este respeito escreverei futuramente.

 

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Hoje

Hoje é dia de retomar a máscara que esconde em si uma realidade não partilhada.

Urge sorrir, quando a vontade é a de apresentar uma expressão cerrada, que faz jus ao coração instável e aos sentimentos bloqueados. 

Hoje reinício a semana. Esgoto o inútil corretor de olheiras. Talvez seja impossível esconder o cansaço de anos! Preciso das férias que tive uma só vez, mas que não sei repetir. Até quando? Certamente enquanto houverem homens sós.

 

Contrastes by PP

 

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A noite

 

investigador

Animação de Randy Bishop

 

 

As manhãs nem sempre têm cor. Surgem desajustadas do meu ser, amante da noite.

Mas nem sempre a noite vem. Às vezes, quando tal não acontece, turbulenta preenche todo o meu universo, manipulando-o. Instável, é nas ondas melódicas que te encontro. Um encontro fugaz,adjacente aos lados do pouco provável e do impossível.

Há momentos assim! A efusão do sonho destilado de uma realidade cruel.

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Ela

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     Eis-me aqui, entre quatro paredes que espelham reflexos.

    Subitamente o silêncio foi interrompido por uma voz histérica, bastante audível, num Português parco e conturbado.

   Lá fora, do outro lado, separados pela parede transparente, percorro-a. Pega no cigarro de forma desafiante, entre olhares e sorrisos que não sei se dotados de sensualidade ou da inocência há muito perdida. Ambas, quem sabe! Lábios carnudos, tez clara e cabelos fortes. Subitamente a sua atenção foca-se na mesa de um grupo de homens. As presas ideais. Apura o olhar, ajeita os cabelos e mete conversa. Aproxima-se e intromete-se apropriando-se de palavras que não lhe pertencem. O vício deve ser alimentado. 

    Não descodifico as palavras, de todo inaudíveis. Constato que pela diferença de idades, os senhores sentem-se incomodados com aquela presença não solicitada. 

Aqui dentro, persiste a tentativa de falar Português, num eco evasivo e provocante.

Lá fora, a vida real. Na procura da felicidade, já que vida "há só uma", o prazer prevalece face à razão.

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