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[in]Sensato

Momentos [in] sensatos de reflexão, opinião e entretenimento

A fotografia que decidi não publicar

 

Só há até já

 

 

 

   Este publicação devia estar acompanhada de uma fotografia. Não, não é a do cabeçalho. 

Uma fotografia de há 3 anos, retratando dois momentos, referentes a uma visita 2 semanas antes ao meu pai e a seguinte. Enquanto a minha mãe o visitava todos os dias, nos HUC, eu saia a correr das aulas, para cuidar da minha avó, já na altura dependente. Ainda em relação à tal fotografia, tive que a trabalhar para que não pensassem que se tratava de um morto. Tanto era o sangue na sua boca, lábios, face... É um pouco semelhante à do vosso lado direito.

Pela 1ª vez não contive as lágrimas à frente dele, após uma saída da minha mãe, num momento de demência. Era notório que estava a servir de cobaia, que aquele autotransplante de medula fora um esquema e que eu nada tinha para colocar certa Prof.ª Dr.ª em tribunal, salvando assim, quem sabe algumas vidas. Ainda hoje tenho alguma dificuldade em perdoar-me.

Perante doentes oncológicos devemos mostrar força. Inclusive aquela que não temos e a que vamos buscar não sei onde. Apesar de ter disfarçado com os olhos claros e óculos uma alergia, a médica assistente fez questão em dizer à minha mãe que eu tinha estado a chorar. Logo à minha mãe, também ela doente oncológica, junto a quem nunca chorei. Ela que sempre se mostrou forte, até ao dia em que ambos caímos (sempre fomos parecidos)...

Sim, neste momento choro. Lembro-me da minha amiga de sempre. A Lenita, quantas vezes pensaram que éramos irmãos, e os desígnios das nossas vidas. Quantos sonhos frustrados. Ainda sonharemos?


Choro por nem todas as formas conducentes à morte serem justas. E digo-vos, o meu pai tinha muitas imperfeições. O nosso relacionamento não foi fácil, não sendo eu rebelde, até que com muita psicoterapia entendi-o. Mas não fingia como tantos(as) outros(as). Ensinou-me a ser justo, humilde, a ele devo grande parte da cultura musical e tantas outras coisas que não soube expressar por traumas de uma guerra injusta, a do Ultramar. Aqui está a fonte de tantos males.


Pautam em mim as injustiças de quem não sabe o que é metade das vivências de um cuidador a tempo inteiro, talvez até parcial, e/ou de doentes terminais. Quantos juízos vazios!

 

 

Atualmente, como cuidador de uma doente de Alzheimer em estado terminal e de uma doente oncológica sinto-me incapaz. Há uma parte do filme que se repete, há o lado psicológico e quem insista em nos reduzir a nada e veja como detentores de uma vida perfeita. Certo é que coitadinhos não somos! Posso relatar alguns momentos de intenso prazer: dar chocolate à minha avó, fazer-lhe bolinhas de sabão, por creme ou trazer-lhe um champô novo. E ainda fala! Fala porque há estimulação e a medicação mais forte é dada nas doses mínimas e só em SOS. Claro que, os gritos de dor arrasam-nos.Com a minha mãe, o não conseguir chegar à origem dos medos, os alertas de outros cancros em nada relacionados com o 1-º; ou seja, aquela presença,...

 

Se no trabalho, nós cuidadores, somos respeitados ou acarinhados?... Não é preciso tecer comentários.

Desde muito cedo, talvez pelo professor ter realizado o mestrado e doutoramento na América, fui ensinado que para as aulas não devemos ir com olheiras, nem a expressar cansaço. Sempre tive olheiras. Aprendi-o nos anos 90, quando comprar um corretor de olheiras não era assim tão fácil e deixava muita gente a olhar para mim. Com isto, quero dizer que evito ir com aspeto de coitadinho ou fazer-me de tal.

 

Ontem, fez 3 anos que nos deparamos com o meu pai, numa cama de hospital, com várias hemorragias, infeções e a delirar.

 

Por razões óbvias, este texto não está bem escrito. Não o vou reler. Não quero.

Quando falam em privilégios dos professores, só me ocorre "selva".

É um direito que me assiste, não é? As Escolas são empresas despersonalizadas, muitas vezes desumanas, com muito show off.

 

Uma realidade a reter: Para muitos, é tão difícil projetarem-se nos outros...😥 Mesmo com a barriga bem grande, valorizam o seu umbigo de tal forma e mentem de forma assustadora.

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Naquele semicírculo

   Ao levantar-se sentiu que alguém, talvez de uma outra dimensão, lhe dizia para não sair de casa. 

Refutou aquele que sempre foi um dos seus pontos fortes: o instinto. Talvez porque, longe dali, estaria em contacto com o mundo da fantasia, de pensamentos não filtrados e jogos infindáveis. Por vezes, há que procurar sair da galáxia que não escolheu, repleta de gemidos ou gritos de dor, fragmentos da sua enorme impotência.

 

   Na sua vida, nunca um semicírculo fora tão perfeito. Na 4.ª velocidade, o sentir-se rumo a um abismo, numa sensação que confirmou a falta de vontade de viver. Não teve medo. O veículo rodopiou 180.º no sentido dos ponteiros do relógio ao pisar algum tipo de lubrificante no piso, em nada semelhante aos destinados ao prazer sexual. Talvez a transparência. 

 

   Em hora de ponta, no sentido oposto ao da sua direção, pode contar com a ajuda de um só condutor. Aquele que, ao parar por forma a que nova meia-volta fosse dada, recebeu a buzinadela de quem se encontrava atrás dele, dificilmente sem conseguir ter assistido ao breve espetáculo matemático ocorrido. Os valores e a educação também se observam pelos pequenos gestos. 

 

   Conseguiu seguir, não deixando de pisar segmentos de reta com e sem tracejado. Durante o dia, o instinto inicial adquiriu novo significado. 

 

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Viver não é fácil.

Então quando norteado por quem anseia sangue e semear a discórdia...

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Voar sem Enguiço

Olhar o quê e procurar o porquê, para quê?

Dos meus olhos brota a inércia de um ódio não consentido, sem ponta de viso. 

 

Naqueles tempos, o amanhã perdeu o sentido. 

Hoje, os loucos controlam o mundo, desde o micro ao macrocosmos, com um nefasto riso. 

 

Já eu, esse ser desprovido de razão, anseio um voo leve e sem sofrimento. 

Agora, aqui ou ali... Sem sinais, lágrimas ou enguiço.

 

 

Na Serra da Estrela by PP @ Flickr

 

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Lamento à Incógnita

 

Close Door by PV - Flickr

 

 

   Quantas vezes o sofrimento é mensurável? 

A matemática da vida não permanece objetiva e o conjunto solução é tantas vezes vazio ou infinito. 

 

   Nos acordes das notas de sangue, em Dó maior, a dor da alma arrisca-se a anular as fragrâncias que aquela porta encerra, a par das memórias de uma vida, agora quase sem cor. 

De que adianta gritar, quando o mundo desvirtualiza o que é nosso?

 

Assim, aos poucos se morre.

Na espera.

Na oração.

Da esperança.

 

Temporariamente sós, até àquele lapso da vida que nos remete para a incógnita.

 

 

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Contra um mundo de alterações climáticas

   Em Portugal, quase tudo se esquece. Há que dar prioridade à vaidade de um umbigo, exibindo extravagâncias ou alimentando o que pouco importa. 

 

   O Homem não detém o controle nem a chave da Natureza. 

Esqueçam-se os incêndios, menosprezem-se as consequências, entenda-se o aquecimento do planeta com uma repetição do passado ou forma de manter o bronzeado, não se cultive um mundo para os nossos descendentes.

 

 

Adianta falar nisto?

 

 

 

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O tema musical Strange World

 

 

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  Esta música, quando lançada, foi de encontro à minha forma de sentir e estar. Não que muito tenha mudado. Porém, naqueles tempos, sentia-me sufocado e com tantas perguntas sem resposta... Dava entrada no mundo da mentira, traição e competição.

De início, desconhecia o videoclip. Com a instalação da parabólica, que então possibilitou-me a entrada noutras culturas e soniridades, provavelmente no então alemão Viva (ou Viva II ) deparei-me com nova projeção do meu ser. Simples, o videoclip de Strange World vai ao encontro, ainda (!), dos nossos dias.

 

O que pensa a respeito desta música/videoclip?

 

 

O videoclip original

 

 

Quase uma década depois, os HIM realizaram um cover deste tema, o qual não é do meu agrado, mas...

 

 

 

A letra 

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Ontem fizemos parte do Blogs Quentes

Sapo Blogs - os quentes

 

 

   Ontem, com um tema da atualidade, analisado pelo ponto de vista de um professor, o Insensato fez parte dos quentes do dia. Ou seja, dos blogues e artigos mais comentados do dia aqui, no Sapo Blogs

Sem qualquer destaque atribuído pela equipa, o artigo Dois Blocos Pedagógicos da Porto Editora - O que realmente importa foi o 9.º mais debatido desta plataforma. E, em meu entender, para isso serve a blogosfera: o debate sempre salutar e construtivo a respeito de diferentes temas.

 

Obrigado leitores e seguidores. 

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Ela e as Bolas de Sabão

   

soap-bubble-1873433_1920 @ Pixabay

 

 

 

 

   Ainda há pouco tempo, as bolas de sabão despertavam-lhe um sorriso.

 

- Que bonitas - dizia.

 

Seguramente, estas bolas de sabão não fizeram parte da sua infância, entre serras e ovelhas, com a Escola tão longe que acabou por não a frequentar. Além do trabalho, tinha de cuidar dos irmãos mais novos. As brincadeiras decorriam à beira rio e pela linha do caminho de ferro.

 

   Naqueles tempos, em plena década de 30, era tão raro ver-se, por aqueles montes de xisto, cabelos de ouro que muitas pessoas, com as suas malas, paravam nos caminhos, e queriam tocar-lhe nos fios de cabelo. Julgavam tratar-se do metal precioso, por todos ambicionado. Ela tinha medo de desconhecidos. Fora preparada para não confiar no bicho homem e respetivas intenções. 

 

   Frequentes eram as inundações, dada a subida das águas do rio. E o caudal tornava-o perigoso pois corria com raiva, escondendo aquelas rochas traidoras. Da aparente abundância, em pleno Estado Novo, num ápice ficava-se sem nada, à mercê de um Deus omnipotente. Um dia, ao dormir, não se apercebeu da roda de fogo que a rodeava, lançando vários braços em tons de vermelho laranja que a queriam diabolicamente abraçar. Os fios de ouro que cobriam a sua cabeça e deslizavam pelas costas deviam ser entregues ao seu mestre. Contudo, num ato de coragem, foi socorrida atempadamente. Da casa nada restou. Uma vez mais, sem nada. O rio ali ao lado e o caminho de ferro. Das cinzas, a família teve de renascer. Tempos em que o espírito de entreajuda e camaradagem predominavam, apesar dos nadas materialistas que se apontam à época.

 

   Estes momentos permaneceram no seu interior por mais de 8 décadas. Descobrimo-los ao associar factos, durante os longos períodos em que de si parece emergir uma outra pessoa, de voz forte e sempre desesperada. Durante tempos, as bolas de sabão e um creme de rosto foram acalmando este ser assustado ou apavorado.

 

   Com o decorrer do tempo, o esquecimento mais significativo. Agora, já não há fogo, cheias, incêndios, terrenos que se alagam, nem cremes ou bolas de sabão que a façam sorrir. À semelhança das suas memórias, também o seu corpo vai encolhendo e as frases dão lugar a palavras. Há o rebentar da bola de sabão, onde também nós permanecemos, numa ali ao lado, persistindo e alimentando a ilusão.

 

 

Estes são alguns fragmentos da vida da minha avó, Doente de Alzheimer

#doençadealzheimer

 

 

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Poesia - Eu e Ela

flowers-677371 @ Pixabay

 

 

 

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou apagãos, via à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavaleiro de Faublas...

 

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

 

 

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