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Insensato

(In)correto com sentimento.

Insensato

(In)correto com sentimento.

Um mês depois dos últimos e trágicos incêndios florestais. O esquecimento?

 

Fogo à porta by PP

 

   Naquele fim de tarde, via um filme com a minha mãe, na Netflix. Uma história baseada num dos livros de Stephen King. Ao longe, ecos de um deus revoltado faziam-se sentir. Em simultâneo, ventos inusitados pareciam abraçar tudo o que lhes aparecia. Como numa boa história de terror, ficámos sem eletricidade. A internet não funcionava em qualquer plataforma. Acabamos deitados, na cama, à semelhança de outros tempos. Uma intensa noite reparadora de sono certamente traria benefícios. 

 

   Pelas 22h - 23h 30 min começamos a ouvir carros que ao passar na estrada apitavam de forma estridente. Julgamos tratar-se de fãs de algum clube de futebol, matéria que não dominamos. Certo é que o barulho pareceu-nos excessivo e de eleições não se tratava... Do quarto da minha avó, na hora de a deitar, apercebemo-nos que, frente à nossa casa tudo ardia, situação que piorava no percorrer da Avenida. Com mais ou menos roupa, despenteados e sei lá como, juntamo-nos à comunidade que lutava no Inferno de Dante. A nossa aldeia parecia a cratera de um vulcão sitiada por fogo.

 

   Temi a explosão da minha carrinha, estacionada ao lado do muro da casa, mas Pedrogão ensinou-nos muito. Pelo menos, a quem tentou aprender. Naquele momento, tínhamos uma casa para proteger, a vida da minha avó acamada, por sorte, naquele dia, noutro mundo bem diferente do nosso. As nossas vidas e a de outros. O meu telemóvel teimava em não ligar. Receei que explodisse. Nada como um banho de água fria, por forma a reduzir a excitação do aparelho, já que tem essa capacidade. Consegui poucas e más fotografias do momento, mas penso que a que inicia este artigo exprime um pouco do que se fez sentir. Existirão fotografias que se possam dizer bonitas de momento tão assustador?

 

 

A casa que arde entre tantos outros elementos by PP

 

 

   Na minha zona, não tivemos o apoio dos bombeiros. Como se viu na televisão, estes, em pequeno número, tiveram que deslocar-se para as vias rápidas e zonas mais atingidas. O povo foi heroico até que, em certo momento, uma  falta de eletricidade levou à falta de água. Neste momento, tínhamos fogo à frente da casa, num terreno que não é nosso e nas traseiras, no quintal. Bem perto, vimos uma casa arder e entre a imensidão das chamas desmoronar-se. Na verdade, apenas a ira infernal fazia-se ver pois todo o resto esteva preenchido por imensas nuvens de fumo negro. O helicóptero do heliporto de Santa Comba Dão também não se encontrava na região. Outrora eram 3. Agora, só um... 

 

   Um senhor ficou desalojado, mas felizmente com o apoio da família. Outros quase morreram queimados dentro de casa, não se apercebendo do que acontecia. Os ventos domaram aquilo que pensávamos nosso. Em simultâneo, pequenas explosões faziam-se sentir. Pequenas, estranhas e de origem duvidosa... Não, não se tratava de botijas de gás. Algo parecia estimular o fogo, como se, além dos ventos, sementes do mal estivessem disseminadas pela terra.  

 

   No nosso caso, a maioria dos pinhais estavam limpos. Os eucaliptos pareciam arder de forma inversa à dos pinheiros-bravos, também estes uma praga, bem como as acácias. Não foram estas árvores a origem do caos a que assistíamos, por vezes sem nada conseguir fazer

 

   Os nossos gatos insistiam em acompanhar-nos, sem medo das mangueiras. O mesmo aconteceu com o cão. Tivemos que tomar medidas. Já a gata da minha avó, não vendo os outros, parecia gritar. Pela estrada, eram muitos os animais de companhia, totalmente desorientados.

 

   Na manhã seguinte, um cenário caótico. O que fora verde, agora apresentava-se vestido de negro, a combinar com uma atmosfera cinzenta. Aqui e ali, alguns reacendimentos. Passados alguns dias, quando choveu, um cheiro intenso e nada estimulante entranhou-se em nós e nas nossas casas. Pela estrada fora, muitos fios caídos, que na generalidade ainda por lá continuam, animais reduzidos ao luto infrutífero de quem não mereceu uma morte digna, pessoas que tudo perderam e os pedaços que de todos nós se esquivaram. 

 

   As árvores continuam despidas, os pássaros regressam num ritmo excessivamente lento, instalam-se os elementos das primeiras sucessões ecológicas primárias... A reconstrução de indústrias ou casas não é fácil. Continuamos sem internet fixa, telefone... Lugares há sem televisão. Relativamente à internet fixa, não sei até que ponto a Altice não lucra com o que acabamos por gastar em pacotes de dados móveis. Porém, esqueceu que a cobertura, em muitas zonas, sempre foi fraca. Um 4G que apenas têm o nome de tal. Pessoalmente, por razões profissionais, tive que adquirir um hotspot da Kanguru. Quantos estudantes necessitam do mesmo e os pais não têm como?

 

   A par da seca que se faz sentir (naquele dia, a água parecia não apagar o fogo, mas ser bebida, inclusive, por rochas), quais as medidas tomadas até então? Não duvido que na origem de tudo o que vivenciamos e assistimos houve mão criminosa. Pouco adianta culpar eucaliptais e afins. Nesta região, por distritos vizinhos, os focos de fogo nasciam e propagavam-se. Sempre com os inusitados "estalidos". Um fogo deve surgir por razões naturais ou acidentais, independentemente do tipo de floresta.

 

   Eis-nos perante o momento de reflorestar. Quais os incentivos? Portugal é Lisboa e Lisboa é Portugal. E se nem o Estado sabe quais são as suas propriedades... O que se espera?

 

   Políticas ambientais urgem ser elaboradas e implementadas. Os efeitos de um planeta doente, constantemente destruído pelo bicho homem são assim tão pouco notórios? Claro, o bem do planeta não dá votos... Claro, regras que penalizem quem polui põe em causa a nossa inusitada democracia. Claro,em Portugal todos temos direitos, mas nem todos temos obrigações; em nome da democracia.

 

 

 

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