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Insensato

(In)correto com sentimento.

(In)correto com sentimento.

13
Out17

Preconceitos Inauditos na Doença Oncológica

PP

 

 

 

   Quando o cancro entrou na minha casa, sem sequer pedir licença, de início atingiu a minha mãe. Pensávamos nós, mas isso é outra história. De início, o que soubemos vir a tratar-se de um tumor, foi confundido com uma borbulha e depois com um abcesso. Só que “este abcesso” não doía, movia-se e estava localizado junto da glândula salivar direita. Escusado será dizer que o diagnóstico não foi rápido.

 

 

9 dez 12 - 5 dias depois da remoção do tumor


   Naqueles tempos, a trabalhar a 110km de casa, desconhecia ter direito a Mobilidade por Doença (MPD), para apoio aos pais ou filhos. Continuei a lecionar, para lá daquela serra de nevoeiros densos e por vezes assustadores e de acessos nem sempre fáceis. Na Escola, apesar de efetivo, nada mudou. Não fossem os verdadeiros amigos, a minha Saúde teria atingido níveis miseráveis. Já há um ano tínhamos a nosso cuidado, acamada e totalmente dependente, a avó, doente de Alzheimer. Atualmente sei que muitas das diarreias que tive, alternadas com prisão de ventre não passaram de manifestações de ansiedade crónica e sensações de culpa, por não estar presente.

 

Avó 86 anos num momento de lucidez by PP

 

 

   Quando a mãe foi para o Hospital, aos fins de semana, com o pai, junto da avó demos o nosso melhor. Apenas uma senhora cuidava da mudança das fraldas e do banho e por sorte, a sobrinha do meu pai morava perto do Hospital, mantendo-nos informados. Sobretudo a mim, durante a semana.

 

 

 

Na luta contra o cancro, sinais já visíveis do do pai by PP

 

 


   Um ano passou. A leucemia do pai mantive-se estranha, de origem desconhecida. A médica especialista que o acompanhava deixou tanto a desejar. Não pelos sorrisos ou simpatia. Antes fosse o oposto: frontal e verdadeira. Passado um ano e um mês da operação da minha mãe, perante o relatório que esta recebera, referente ao meu pai, dados os meus parcos, ainda que suficientes conhecimentos, deparámo-nos perante a morte anunciada ou a probabilidade de 7 anos de vida, quase todos eles presos a uma cadeira de rodas, com avanços e retrocessos. Estávamos perante um cancro grave, designado Mieloma Múltiplo, que já vivia no seu corpo há uns 6 anos, sem qualquer diagnóstico até então.

 

   Eu, continuava na mesma Escola. Perdi “o chão”. Não digam que é bom ser filho único. Fui também eu, após o termos "enganado", mediante recomendação da médica de família, quem abriu a porta para aquilo com que se iria confrontar. Se soubessem o quanto essa semana foi terrível ou esse entreabrir da porta...

Constatei que pensava que todos tínhamos pais até que estes fizessem 70 e tal anos. Afinal, o meu foi pai cedo. Outra série de sonhos perdidos. Dei início a um luto antecipatório. Mal sabia o que estava para vir.

 


   Não foi na Escola que encontrei compreensão e conforto, mas nos amigos daquela região. A Paulinha e o Nando, frequentemente, aos fins de semana, encostavam-me "contra a parede" e levavam-me para casa deles encaixando-me na sua família. Caso contrário, eu era capaz de ficar dois a três dias na cama, a olhar para o nada, a pensar no futuro. Quantas vezes fiquei com a dispensa vazia tendo o supermercado ao lado!

 

   Ao longo do tempo, constatei, no bar da Escola, na hora do lanche, que alguns professores se afastavam de mim. Naturalmente, eu não seria a melhor pessoa para conversar, mas conseguia fazê-lo, até porque, quando no abismo, tranco-me em casa ou no quarto. Um dia ouvi: “Com tantos casos de cancro na família, ainda nos passa a doença”. Saliente-se que quem proferiu tais palavras tem formação académica.

 

Soubesse onde eu onde estou by PP

 

 

   Passados alguns dias, ocorreu uma situação que jamais esquecerei e admiro o autocontrole que consegui ter. Uma colega, em meu entender, de competência algo inusitada, procurou colocar os pais de uma turma contra mim, uma vez que, como é compreensível, perante a situação vivida eu faltava com frequência. Mas não deixava de parte o que me competia. As minhas aulas sempre foram coadjuvadas pela professora com mais tempo de serviço da escola, uma docente repleta de saberes, amiga e com postura, sendo que ambos constatávamos que os alunos não estavam empenhados. Perante os resultados da ficha de avaliação, tudo e mais alguma coisa passou a dever-se ao professor. Uma reunião desenrolou-se nas minhas costas. Curioso é que as afirmações proferidas por alguns dos pais mais descontrolados (não estive presente, mas as informações chegaram-me no próprio dia, por alguns pais preocupados) não iam ao encontro das dos alunos. Porque sempre lutei pela igualdade e justiça, e pouco me importa se o aluno é filho de um ministro ou de uma prostituta (sim, já tive ambos os casos) disse a um aluno “O mundo não gira à tua volta. Os professores, tal como tu, também sofrem. Também têm problemas. Por isso, quando fazes uma acusação, deves pensar naquilo que dizes e respetivas consequências”. Escusado será dizer que a mãe quis fazer parte dos meus parasitas intestinais, do couro cabeludo e sei lá do que mais. Com tantos problemas na minha cabeça, longe de casa, com fobia à condução, em risco de perder os pais, .... temos tempo para parasitas?


   O respeito pelo docente era tal que um dia, perante uma afirmação minha, a tal professora dos alunos respondeu-me “Não, tu não disseste isso. Estás a ficar com Alzheimer como a tua avó!”. Uma outra vez: “Com os cancros dos pais, certamente também terás."

 


   Todas as pessoas referidas têm formação académica superior. O que é feito dos valores, da cidadania, empatia,  solidariedade, entre outras? Como é que as transmitem aos alunos? Escusado será dizer que frente a diretor(a) sabem fingir. 

 

E você, já ouviu falar em casos semelhantes?


   Antes de lavrar este texto, tive conhecimento de um jovem cujo pai faleceu quando tinha 12 anos, vítima de doença oncológica. Também ele sofreu discriminação. Confesso que pensava ser caso único. Tentei entrevista-lo, mas só as minhas palavras, que dizem tão pouco, segundo ele, passados 10 anos, fazem-no sofrer. 


Partilhe as suas experiências, neste ou outro âmbito. Para tal, recorra ao meu endereço de correio eletrónico (perfil), por forma a lutarmos por um mundo melhor.

30
Ago17

Ontem fizemos parte do Blogs Quentes

PP

Sapo Blogs - os quentes

 

 

   Ontem, com um tema da atualidade, analisado pelo ponto de vista de um professor, o Insensato fez parte dos quentes do dia. Ou seja, dos blogues e artigos mais comentados do dia aqui, no Sapo Blogs

Sem qualquer destaque atribuído pela equipa, o artigo Dois Blocos Pedagógicos da Porto Editora - O que realmente importa foi o 9.º mais debatido desta plataforma. E, em meu entender, para isso serve a blogosfera: o debate sempre salutar e construtivo a respeito de diferentes temas.

 

Obrigado leitores e seguidores. 

29
Ago17

Dos Blocos Pedagógicos da Porto Editora - O que Realmente Importa

PP

 

 

20170404_164028 do meu arquivo pessoal - 3C

 

 

 

 

   Nos últimos dias, a publicação dos blocos pedagógicos, destinados a rapazes e a meninas do Pré-Escolar (o masculino de meninas não é "meninos"?), pela Porto Editora, e concomitante recomendação para retirada dos mesmo do mercado, têm vindo a ocupar várias linhas na blogosfera e ainda um  espaço televisivo considerável. Se todos temos direito a uma opinião, no contexto educativo são as especializadas aquelas que têm mais valia, em áreas fulcrais para o bom desenvolvimento do ser humano. E de facto, estas têm sido quase inexistentes. Sim, Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, não é da área da Educação ou da Saúde Infantil, e à semelhança de tantos outros, não sabemos quais os interesses que se podem esconder na tomada de determinada postura. Quem empregam as editoras? Para a publicação de blocos pedagógicos e outros recursos didáticos qual é o currículo exigido? O que se ganha na venda de um livro? Quais são as etapas até que um llivro de tarefas seja lançado no mercado? Os autores têm conhecimento prévio das ilustrações? Nunca os media exigiram tanto espírito crítico e de filtragem de conteúdos, como nos nossos dias. 

Não abnegemos que muitos são os pais sem recursos económicos por forma a adquirirem um ou outro bloco para os seus descendentes. Neste momento, recordo, na passada feira do livro da minha Escola, uma criança dos seus 4 anos que chorava por não poder levar um pequeno livro de €3. 

 

   Infelizmente, também a minha opinião não é especializada. Neste domínio do ensino, apenas exerci funções como professor de educação especial. Constatei que, nas salas de aula, as tarefas não são propostas em função do género. Na verdade, todos têm tempo para experimentar aquilo que supostamente é para menino e para menina. A problemática está no número de alunos por sala, o que se estende aos restantes Ciclos de Ensino. Como realizar um trabalho diferenciado, atender as diferentes necessidades das crianças... Deste problema não se fala. 

 

   Não sou a favor de manuais orientados para um sexo. Deve haver liberdade de escolha. Contudo, e apesar de não concordar com os blocos pedagógicos lançados, sou contra a proibição da presença destes no mercado. A proibição levanta precedentes. Por outro lado, os profissionais sabem organizar as tarefas por forma a irem ao encontro da população-alvo. Acredito que o mesmo acontece com muitos pais, mas nem todos. A educação das crianças e adolescentes está cada vez mais delegada à escola, até porque "quem faz um filho fá-lo por gosto" (Ary dos Santos).Este é outro problema que tem vindo a ocupar reuniões de docentes, sem quaisquer avanços. Afinal, é algo de que também não importa falar

 

   Relativamente ao grau de dificuldade das tarefas em função do género, dado não ter os Blocos para análise, convém referir que uma estrutura circular não oferece o mesmo grau de dificuldade que uma quadrangular. Não posso concordar com o incentivo, se assim se pode dizer, a que as meninas se juntem a outras e os meninos a outros. Assista-se à prestação da presidente da CCIG, na na SIC Notícias e a notícia que aponta para os exemplos de segregação promovidos por estes blocos. Um ponto interessante, a CIG sugeriu a formação de um só Bloco de atividades (atualização em 29/09, às 20h de acordo com a notícia destacada). O parecer técnico desta Comissão pode ler-se aqui ou em Parecer Técnico conteudos Blocos Atividades_Porto Editora 23Agosto2017 .

 

 

   Um parecer que me parece sensato é o do Dr. Alberto Frias, numa entrevista ao Expresso, designada por O Boletim de Saúde Infantil e Juvenil sempre foi cor-de-rosa para as meninas e azul para os meninos . De facto, reorganizar as tarefas dos blocos pedagógicos em causa, é uma solução que invalidada a proibição. Esta remete-me para o Estado Novo, embora inúmeras sejam as situações que fazem-me duvidar de um Estado Democrático. Tão ou mais importante, é rever os currículos das diferentes disciplinas, por ano de ensino. As crianças, desde muito cedo, vivem enjauldas nas salas de aula, sem brincar, sejam meninas ou meninos, não vivendo a infância na íntegra. Mais tarde, as discussões típicas entre jovens adolescentes também não são levadas a cabo, uma vez mais, dado o tempo destes estar ocupado entre aulas e atividades extracurriculares. Quando é que estes poderão ser? O que esperar de gerações que são fruto de decisões de quem não trabalha no terreno ou finge ter ligações diretas com quem o faz? Que nunca treparam a uma árvore, brincaram às escondidas ou erraram no intuito de aprender com o erro? Que desconhecem a frustração?

 

   A democracia, no seu conceito de conceder o direito a todos de opinar, tem limites. Para o fazermos, há que procurar estar informados e aceitar a opinião de outros, sem lhes faltar ao respeito. As palavras têm poder! A problemática que se nos depara vai além das diferenças de género. Importante seria que aquilo que importa não fosse esquecido.

 

 

20
Jul17

Uma lição de vida

PP

 

 

   Quase tudo planeamos, mas nem tudo controlamos.

 

   Nesta animação vemos como Dechen planta a sua flor e cuida dela com muito carinho. Com o decorrer do tempo, a planta perde vitalidade, o que se acentua quando o protagonista a leva para dentro do mosteiro, não obstante a permanente dedicação. Conforme murcha, Dechen não entende o que se passa e acentua-se a sua tristeza.

O seu tutor vê-se obrigado a dar-lhe uma lição de vida

Dechen consegue compreender que ao eliminar a necessidade de poder e de controle, a sua flor começa a renascer.

No lugar de uma flor, podemos falar de um projeto de vida, dos nossos filhos ou do nosso relacionamento amoroso, nossos sentimentos, nossas emoções ou nossa capacidade de aproveitar a vida.

 

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