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Insensato

(In)correto com sentimento.

(In)correto com sentimento.

26
Set17

Naquele semicírculo

PP

   Ao levantar-se sentiu que alguém, talvez de uma outra dimensão, lhe dizia para não sair de casa. 

Refutou aquele que sempre foi um dos seus pontos fortes: o instinto. Talvez porque, longe dali, estaria em contacto com o mundo da fantasia, de pensamentos não filtrados e jogos infindáveis. Por vezes, há que procurar sair da galáxia que não escolheu, repleta de gemidos ou gritos de dor, fragmentos da sua enorme impotência.

 

   Na sua vida, nunca um semicírculo fora tão perfeito. Na 4.ª velocidade, o sentir-se rumo a um abismo, numa sensação que confirmou a falta de vontade de viver. Não teve medo. O veículo rodopiou 180.º no sentido dos ponteiros do relógio ao pisar algum tipo de lubrificante no piso, em nada semelhante aos destinados ao prazer sexual. Talvez a transparência. 

 

   Em hora de ponta, no sentido oposto ao da sua direção, pode contar com a ajuda de um só condutor. Aquele que, ao parar por forma a que nova meia-volta fosse dada, recebeu a buzinadela de quem se encontrava atrás dele, dificilmente sem conseguir ter assistido ao breve espetáculo matemático ocorrido. Os valores e a educação também se observam pelos pequenos gestos. 

 

   Conseguiu seguir, não deixando de pisar segmentos de reta com e sem tracejado. Durante o dia, o instinto inicial adquiriu novo significado. 

 

imagem_dicasfev_destaque

 

 

Viver não é fácil.

Então quando norteado por quem anseia sangue e semear a discórdia...

24
Set17

Voar sem Enguiço

PP

Olhar o quê e procurar o porquê, para quê?

Dos meus olhos brota a inércia de um ódio não consentido, sem ponta de viso. 

 

Naqueles tempos, o amanhã perdeu o sentido. 

Hoje, os loucos controlam o mundo, desde o micro ao macrocosmos, com um nefasto riso. 

 

Já eu, esse ser desprovido de razão, anseio um voo leve e sem sofrimento. 

Agora, aqui ou ali... Sem sinais, lágrimas ou enguiço.

 

 

Na Serra da Estrela by PP @ Flickr

 

05
Ago17

Fotografia - Olhar sedento

PP

   Longe vão os dias em que ousava retocar os seus lábios de vermelho sangue.

Insensata à luz da sedução, aquele cruzar de pernas rendia-lhe o paraíso jamais ambicionado pelos moradores de rua.

Naquela dia, sedenta do elixir fálico do amante, enquanto o carro preto servia de esconderijo aos segredos mais profundos da sua condição, nada a fizera prever que a sua mão iria ao encontro de algo hirto e relativamente grosso. O punhal que se inteirou do seu corpo, no rodopio dos segredos de um certo senhor do Estado, para o qual a verdade da mentira jamais podia emerger.

P.P. 

 

 

IMG_20170804_153008_508 do meu arquivo pessoal

 

28
Jul17

Ela e as Bolas de Sabão

PP

   

soap-bubble-1873433_1920 @ Pixabay

 

 

 

 

   Ainda há pouco tempo, as bolas de sabão despertavam-lhe um sorriso.

 

- Que bonitas - dizia.

 

Seguramente, estas bolas de sabão não fizeram parte da sua infância, entre serras e ovelhas, com a Escola tão longe que acabou por não a frequentar. Além do trabalho, tinha de cuidar dos irmãos mais novos. As brincadeiras decorriam à beira rio e pela linha do caminho de ferro.

 

   Naqueles tempos, em plena década de 30, era tão raro ver-se, por aqueles montes de xisto, cabelos de ouro que muitas pessoas, com as suas malas, paravam nos caminhos, e queriam tocar-lhe nos fios de cabelo. Julgavam tratar-se do metal precioso, por todos ambicionado. Ela tinha medo de desconhecidos. Fora preparada para não confiar no bicho homem e respetivas intenções. 

 

   Frequentes eram as inundações, dada a subida das águas do rio. E o caudal tornava-o perigoso pois corria com raiva, escondendo aquelas rochas traidoras. Da aparente abundância, em pleno Estado Novo, num ápice ficava-se sem nada, à mercê de um Deus omnipotente. Um dia, ao dormir, não se apercebeu da roda de fogo que a rodeava, lançando vários braços em tons de vermelho laranja que a queriam diabolicamente abraçar. Os fios de ouro que cobriam a sua cabeça e deslizavam pelas costas deviam ser entregues ao seu mestre. Contudo, num ato de coragem, foi socorrida atempadamente. Da casa nada restou. Uma vez mais, sem nada. O rio ali ao lado e o caminho de ferro. Das cinzas, a família teve de renascer. Tempos em que o espírito de entreajuda e camaradagem predominavam, apesar dos nadas materialistas que se apontam à época.

 

   Estes momentos permaneceram no seu interior por mais de 8 décadas. Descobrimo-los ao associar factos, durante os longos períodos em que de si parece emergir uma outra pessoa, de voz forte e sempre desesperada. Durante tempos, as bolas de sabão e um creme de rosto foram acalmando este ser assustado ou apavorado.

 

   Com o decorrer do tempo, o esquecimento mais significativo. Agora, já não há fogo, cheias, incêndios, terrenos que se alagam, nem cremes ou bolas de sabão que a façam sorrir. À semelhança das suas memórias, também o seu corpo vai encolhendo e as frases dão lugar a palavras. Há o rebentar da bola de sabão, onde também nós permanecemos, numa ali ao lado, persistindo e alimentando a ilusão.

 

 

Estes são alguns fragmentos da vida da minha avó, Doente de Alzheimer

#doençadealzheimer

 

 

28
Jun17

O Azar ao Sair do Carro ao invés do "Azar na Praia", música intemporal...

PP

   Não, esta não é uma publicação do Hetero Doméstico ou do Estúpido Aluga-se. Trata-se de uma história real. Tão real quanto a sua sede. Eu fui o principal interveniente.

 

   Talvez ainda se lembre (ou desconheça!) o tema "Azar na Praia".

Não se preocupe. Pode ouvi-lo aqui. Talvez seja melhor baixinho (faça-o se não quiser desenvolver um problema auditivo), mas esteja atento à letra.

 

 

   Nesta minha história, com cerca de um ano, não há "marmelinhos à mostra". Felizmente, os "tomatinhos" também não. "Tomatinhos" dado estarmos a falar de frutos, claro!

 

   A vida de professor é stressante, pelo que eventuais acidentes de percurso são normais. Por exemplo, comigo é de todo importante que as portas com vidros os tenham um pouco sujos ou escuros. Caso contrário, caso ela não se desvie, eu também não o faço.

 

Uma das atividades que detesto, inerente à profissão, é a vigilância de exames. Ter de permanecer calado cerca de 2h (múmia!), de pé, muitas vezes sem água e ver os alunos a sofrerem... Não, não é fácil. Sinto vontade de saltar, dizer piadas,... Como tal, quando requisitado para o serviço de exames nacionais ou provas de aferição, o meu stresse começa bem cedo.

 

   Naquela manhã, o calor fazia-se sentir. E que calor!

Calma, pois não me recordo de como acabei o meu dia. Nada de pepinos, melancias e afins nesta salada.

 

A minha relação com a roupa é algo caótica. Em toda a que toco, logo fica amarrotada, fora do lugar,... 

Após o duche matinal pedi à minha mãe uns calções confortáveis. Sabia que tinha emagrecido, mas esta peça de vestuário parecia.me ficar bem, ainda com o tamanho adequado. A minha mãe disse:

 

- É melhor pores cinto. 

 

Claro que não ouvi. Estavam justos naquela maldita gordura localizada, na região abdominal. Ao sair de casa, feito gato assustado, com receio de atrasar-me, a minha mãe repetiu a recomendação. Não, ela não podia ter razão. Para além disso, tinha vestido as cuecas. Nada abanava. Não estava num dia "não".

 

   E assim parti, rumo à Escola Secundária do meu Agrupamento.

Estacionar entre dois carros? Nem pensar. Avistei um espaço livre para dois, e lá deixei o carro, torto ou direito, já nem sei. Ah, não tenho direção assistida, ok? Nada de gozarem com a minha incapacidade. Até porque, direção assistida a torto ou a direito é importante para outras coisas. Ups!

 

   Troquei os óculos de sol pelos outros e toca a sair do carro, ao meu estilo teen, mas com postura. Nesse momento de solene postura ereta, os calções decidiram cair, até aos meus joelhos! Logo eu? E as minhas nádegas que precisam de silicone voltadas para um edifício com lojas no rés-do-chão? Consegui segurar, atempadamente, a parte da frente do calção. Estaria com direção assistida (rima com o que quero dizer!)? Não sei. Visto do lado direito, por onde é a entrada dos "doutores" seguramente dei a ideia de que alguém fazia-me sexo oral, desde o interior do carro. Já a minha expressão facial... "Sim! Oh, não! Simmm!"

 

   Nada como "desatar" a rir da minha figura, com vontade em deixar os calções estendidos em qualquer pau... da roupa. O tempo tinha passado e era impossível regressar a casa, por forma a trocar aquela peça de roupa.

 

   Cabeça erguida, um sorriso, os bons dias e lá fui eu.

Escusado será dizer que durante todo o tempo que estive na Escola, segurar os calções com a mão foi uma prioridade. Ainda bem que não fui quem entregou os exames aos elementos do secretariado pois, caso contrário, "Azar na Escola". Na verdade, "Como é que eu hei de?/ Como é que eu hei de ir-me embora/ Com a saladinha prestes a ficar de fora".

 

E o dia continou quente.

E eu fiquei ainda mais quente...

 

"Life drawing of a male nude with a cane" (Adolphe Valette), Manchester Art Gallery, Manchester

 

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