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[In]sensato

O (in)correto deambula entre nós...

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O (in)correto deambula entre nós...

Saber estar no Café - não vivemos isolados

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   Desde cedo, pelos meus 15 anos, habituei-me a fazer do café (utilizei o singular dado, regra geral, manter-me fiel a um só), um lugar de aprendizagens, conversas enriquecedoras, inclusive com professores, de desabafos e devaneios, de estudo e leitura. Em alguns, de culto musical também.

 

   No ensino superior, quase sempre estudei, dependendo das disciplinas, em cafés. Contudo, constato uma mudança inusitada e nada agradável ao nível destes espaços, fruto da atual sociedade "umbilicista". Naqueles tempos, quantas vezes titubeávamos, receando incomodar as pessoas da mesa ao lado ou que os nossos "segredos" fossem ouvidos.

 

   Ontem, após 100 km de viagem e uma consulta médica a meio do percurso, procurei levar avante a leitura do meu livro A Célula Adormecida, na pastelaria do costume. Fotografei o meu bolo, desejei felicidades ao meus antigos alunos que faziam anos naquele dia, pelo Facebook e pus de lado o telemóvel. Era chegada a hora de voar e enriquecer o vocabulário. A pastelaria estava praticamente cheia. O pior foi quando chegou um casal de amigos, com os respetivos filhos...

 

   Tendo estado no ar durante muito pouco tempo, logo constatei os frutos do Super Nanny. Na verdade, não foi a primeira vez que me cruzei com aqueles casais, suas crias, respetivos comportamentos fleumáticos, ocupando, uma vez mais, as mesmas mesas. Sim, regra geral também sou fiel à mesa, embora não tanto quanto ao café/pastelaria. 

 

- J. não fazes isso. Não vais pedir o Kinder! - exclamou, de forma audível, o pai de um dos miúdos.

A outra senhora ofereceu-se para pagar um ao J. e outro ao seu filho. De forma ainda mais estridente ouviu-se:

- Quem manda no meu filho sou eu! - afirmou, de forma bem audível, frequentemente apelidada de "aos berros", certamente no intuito de chamar a si o olhar dos clientes para a forma como sabia educar os meninos.

Até aqui, quase tudo bem. O facto das crianças deslizarem pelas cadeiras ou estarem quase em cima da mesa foi totalmente ignorado.

Parece-me que este tipo de pais ainda não aprendeu, talvez por o programa ter sido transmitido tão poucas vezes, ainda que a versão americana possa ser acompanhada na Sic Mulher, que a educação dá-se em casa. É neste ambiente que a criança deve aprender a estar e a saber o que pode ou não pedir, num café ou qualquer outro ambiente. Pelo que ia ouvindo, frequentemente pensei "Deus queira nunca venha a ser professor destes miúdos. Com estes pais..." Argumentavam como se cada juízo fosse uma verdade absoluta, como se as professoras (ou educadoras) fossem meros fantoches. "Ah, ah, ah... quero ver como farão, quando os miúdos estiverem no 3.º ano a aprender frações ou com um programa rigoroso de Estudo do Meio" - sussurrou-me ao ouvido um dos diabinhos que me acompanha.

 

   Esquecendo os deslizes na mesa dos miúdos, a constatação que fazemos nas escolas: quando uma criança é mal educada, os pais são "mil vezes" piores. A empregada era chamada aos berros e os pedidos feitos como se fosse uma serviçal, do tempo da escravatura. Numa sala cheia de gente, apenas com uma pessoa a atender e estando os pais na última mesa do café, logo a mais distante do balcão, ouvia-se "C. traz-me uma água.", "C. dá um chupa ao J.!", ... Para aquelas pessoas ninguém mais (ou ninguém mais importante do que eles) frequentava o mesmo espaço. Por o dedo no ar e aguardar, ou ir ao balcão estava fora de questão. Aproveitar para testar a capacidade de retenção dos meninos, fazendo com que estes fizessem o pedido ao balcão, também. Naquela idade, a criança já é capaz de efetuar um pedido/recado, com 3 elementos distintos. 

 

   Como "quem está mal, muda-se", acabei de ler um capítulo e rumei a casa, com um bolo para a minha mãe, doente com gripe e urticária. Isto, não sem antes ouvir "Aqueles da Casa dos Segredos a esfregarem-se uns nos outros... Que nojo!". Esta opinião foi corroborada pela senhora. Sem entender a quem se referiam, dado considerar os atuais concorrentes educados e sem os perfis de alguma gente da noite, das antigas edições, não compreendi. Cansaço, talvez. Uma luz brilhou: referiam-se ao casal homossexual masculino. Dois homens que apenas, de vez em quando, trocam abraços carinhosos e encostam as bocas, sem qualquer french kiss. Jovens que levaram a minha mãe, nos seus 66 anos, a comentar "Mas isto é que é ser gay? Isto não me choca nada", permitindo-me explicar que também nos heterossexuais verificam-se alguns comportamentos, em público, condenáveis, tal como em alguns homossexuais. Como professor de Ciências Naturais, quase sempre responsável pela área de Educação Especial, melhor compreendi ser em mim que muitos dos alunos depositam confiança, inclusive quando adultos. Isto, independentemente da orientação sexual. Como é que aqueles pais, ainda novos, podem ter uma mente tão fechada quando desconhecem a orientação sexual dos filhos, netos?... Curiosamente, naquele "nojo" tão acentuado, senti o descontentamento de quem nunca foi abordado por um homem. Coisas minhas...

 

   Para finalizar, estar numa mesa de café, conversar com delicadeza e realizar o pedido sem espalhafato, são regras cruciais para o respeito pelos outros. As crianças educam-se em casa. Não devemos esquecer que vivemos em sociedade. Muitos preconceitos correspondem a medos de sermos o que não queremos. Em primeiro lugar, a criança/adolescente deve confiar nos seus progenitores. 

Admito ter sentido uma vontade desmesurada em gritar "Quero ler o meu livro. Posso? Eu sei que só devem ter lido obras com um um quarto das páginas, ou nem isso, passando apenas pelas revistas de fofocas, mas... posso ter direito ao meu espaço, à minha leitura?... E as crianças, não as sabem educar em casa? Se querem falar alto, façam-no em casa!"

 

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