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[In]sensato

O (in)correto deambula entre nós

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Filme Al Berto - um poeta maldito?

Al Berto

 Ler o artigo da Rádio Sines

 

 

 

   Alberto Raposo Pidwell Tavares, que adotou o pseudónimo de Al Berto, nasceu em 1948 em Coimbra, mas viveu toda a infância e adolescência em Sines, no litoral alentejano. Após um exílio em Bruxelas, entre 1967 e 1974, onde estudou pintura, regressou a Portugal para se dedicar à literatura. Morreu aos 49 anos. A sua poesia é densa, por vezes taciturna, associada aos fantasmas da vida de quem não receia dizer o que pensa, ainda que vivendo, até certo ponto, só. Pode encontrar alguma das suas obras literárias, para venda, aqui.

 

Um momento de poesia, pelo próprio, em 17 de janeiro de 92.

O conteúdo pode ser ofensivo para pessoas mais sensíveis, mas corresponde à realidade, naqueles tempos, da relação entre o público português da época e a poesia. Aqui, encontra uma transcrição escrita.

 

 

Um momento mágico do autor, em sida.

 

 

 

 

   Trata-se de um drama biográfico que relata um período da vida de um dos mais carismáticos poetas portugueses da segunda metade do século XX, entre 1975 e 1978. Tal sabe a pouco, por vezes confundindo-se a obra cinematográfica com um filme LGBT. A realização e o argumento ficam a cargo de Vicente Alves do Ó.

 

   Em Sines viveu, naquele período, de forma aberta, uma relação condenada pela sociedade. 

Neste documentário não encontramos a literatura do poeta maldito, ligado à noite, mas uma fase de devaneios, fruto da liberdade aparentemente conseguida no país de brandos costumes, influenciada pela música e cultura inglesa e francesa. Não esquecer o espírito libertário, tão característico dos americanos, nas décadas de 60 e 70.

 

   Al Berto viveu com um grupo de amigos numa casa senhorial à entrada de Sines, conhecida como “palácio”. A casa tinha sido pertença da família dele, mas fora expropriada para a construção de bairros operários do complexo industrial de Sines (a parte inglesa da família de Al Berto, os ingleses Pidwell, foi viver para Sines no fim do século XIX e enriqueceu com a indústria conserveira, criando laços familiares com latifundiários alentejanos). No palácio, este grupo de jovens esclarecidos de Sines adotou um estilo de vida hippie, em regime de ocupação. No período em análise, Al Berto viveu um história de amor com o irmão do realizador deste filme, que acabou de forma turbulenta.

 

   Vinte anos volvidos da morte do poeta, a 13 de junho, o trailer do documentário foi lançado, neste mesmo dia, em 2017. Atores pouco conhecidos do público, mas com grandes capacidades artísticas. Embora tenha gostado, considerando-o um filme ao estilo dos canais ARTE ou Sundance, esperava mais ousadia, história e ação.

 

Nota 3 em 5 

 

 

Escrevo-te a Sentir Tudo Isto

escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade
habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar

Al Berto
«O Medo» (1987)

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