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[In]sensato

O (in)correto deambula entre nós

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O (in)correto deambula entre nós

A tua orientação sexual não é uma escolha

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   Apesar de muito exigente, o que por vezes gera alguns conflitos durante o ano letivo, com a necessidade de explicar as minhas intenções aos pais/encarregados de educação, ao longo destes 20 anos, até há data contados em menor número pelo nosso Governo, tenho vindo a manter, com os alunos, amizades sólidas. Depois de professor/ aluno, ficamos amigos. Nas aulas de ciências naturais, é da minha prática pedagógica, abordar "tudo" de forma confidencial e com respeito pelo outro. Em alguns aspetos, são o confessionário dos discentes, sobretudo quando à mesma turma é-me atribuída matemática. Preocupo-me, além dos conteúdos, que os alunos desenvolvam o espírito crítico, respeito e tolerância. Por exemplo, as fotografias depois da remoção do tumor da minha mãe foram-lhes mostradas à turma de então, com intuito de constatarem como uma doença pode modificar o nosso aspeto, pondo em causa a saúde enquanto tríade, e não termos o direito de julgar o nosso semelhante.

 

   Conste ou não do programa, desde 1997 incluo educação sexual como parte integrante do currículo oculto. Esta é muito mais do que falar de sexo e prevenção das IST ou gravidezes indesejadas. Trata-se de um exercício de tolerância, consciencialização das nossas diferenças, vocacionado para o respeito, o amor pelo outro e a amizade. Exercícios de debate em redor de temas como o divórcio e os filhos, a violência no namoro, ... Momentos de reflexão e construção de algumas peças do futuro ser.

 

   Volvidos alguns anos, após terem sido meus alunos, já no 9.º ano ou secundário, tenho vindo a constatar o sufoco de muitos, tendo mesmo de recorrer a formas de quebrar o gelo, em redor da sua orientação sexual. "Professor eu gosto de raparigas, mas também gosto de rapazes!" Gera-se um turbilhão de sentimentos, quase sempre com receio da reação da família e de ordem religiosa. 

Normalmente, digo para não se preocuparem. Com o decorrer do tempo, descobrirão qual é o sexo pelo qual se sentem realmente atraídos ou se é de facto por ambos. É interessante a necessidade destes adolescentes em terem um rótulo, que os remete para um grupo. Entendo e recordo-me que, na adolescência, um pouco de tempo parece uma eternidade e é nesta que defendo a continuidade em dar a mão. Há que sugerir a não utilização de determinadas aplicações de cariz sexual (sim, em primeiro testo-as) e a tentativa de resistir a eventuais fontes de assédio, muitas vezes presentes no seio familiar, sem que os pais se apercebam. Quem não se lembra de, na adolescência, no período da manhã querer usar certo perfume que passa a odiado no período da tarde? Também os sentimentos, a par das hormonas efervescem.

 

   Assim é um dos últimos casos que me chegou. A homofobia de um familiar parece traduzir-se naquilo que de facto entendo como "homofóbico" (aquele que tem medo de se sentir atraído por membros do mesmo sexo), manifestando-se em atitudes de bullying  e um desejo que ainda não decifrei. A este respeito nada mais posso adiantar, como o leitor certamente entenderá. De certa forma, estas são variáveis que não me ocorreram até então. Muito menos envolvendo um adulto (apenas no corpo e idade cronológica) e um adolescente. Certamente, o meu lado naif.

 

   Sejamos objetivos, a orientação sexual não é uma escolha. Há que saber estar entre os restantes com normalidade, sem sentimentos de culpa. Um Homem faz-se pelos seus atos! De que importa se procura carinho nos braços de uma pessoa do mesmo sexo, de ambos ou do oposto? Por outro lado, quem realmente gosta de nós, aceita-nos. Da família não fazem parte somente aqueles que partilham o mesmo ADN, mas sobretudo as pessoas que estão presentes nos bons e nos maus momentos, capazes de nos dizerem por exemplo, "ficas tão mal com essa roupa" Estes são os Amigos, a família do coração.

 

   Esta orientação não é comandada pelo sujeito. "Sou bissexual durante o curso e depois passarei a hetero". O respeito pelo outro é importante. 

 

   Parece-me que, durante o percurso educativo, a educação para os afetos vai-se perdendo, dando lugar à presente ameaça dos currículos extensos e desajustados, associados a uma carga horária que impede as crianças de o serem, bem como os adolescentes. A relação pedagógica é mais difícil de criar nos nossos tempos do que, por exemplo, há 10 anos...

 

Fonte da foto de capa, aqui

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