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[in]Sensato

Momentos de reflexão, opinião e entretenimento, no deambular entre pólos

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Momentos de reflexão, opinião e entretenimento, no deambular entre pólos

A mãe faz anos e esta é diferente de muitas

Postal de Aniversário by PP

 

 

Não é fácil escrever a respeito da minha mãe.

Nem todos parecem abençoados nesta vida.

 

   O pai, um GNR que tudo gastava em amantes e na bebida, nada depositou no futuro das filhas. Como tal, a mãe, de quem agora é cuidadora, foi mãe e pai ao mesmo tempo. O ambiente de violência doméstica sempre a envergonhou pelo que talvez por isso tenha acabado por casar cedo, com o único namorado. 

 

   Mãe aos 19 anos, não estava preparada para um marido com traumas de guerra. Quem é que neste país estaria? Algo que soubemos bem tarde, quando começou-se a falar das consequências psicológicas dos ex-combatentes do Ultramar.. Como tal, também ela foi vítima de violência doméstica, inclusive quando com o filho portador de deficiência nos braços, perante os sogros que o e a abnegavam, procurando incendiar a relação. O bebé acabou por morrer. Já ela, quase perdeu a voz, com a paralisação das cordas vocais. Nem todos choramos...

Foi então que da casa dos sogros, onde pagavam uma renda elevada para a época e ainda consumíveis, o casal acabou por ir viver para uma pequena casa, de parcas condições. Aí fui concebido e ainda lá vivi alguns anos da 1.ª infância. Entretanto, na Alemanha, o meu pai trabalhou na Mercedes Benz, por forma a ter a sua própria casa. Um erro. Não devemos apostar tudo numa casa, numa grande casa. Tudo sofre alterações, algumas das quais nefastas. 

 

Talvez com a pequena "casita" tenhamos aprendido que não é preciso muito para sermos felizes. Em todo o percurso, sempre a seu lado, a minha madrinha e a filha, minha prima, de quem já vos apresentei algumas obras de arte. A irmã, personagem que venerei até aos meus 19 anos, estabeleceu uma relação sem amor, a não ser pelo próprio umbigo. Por vezes, o nosso coração impede-nos de ler os olhos dos outros e de acreditar no óbvio.

 

   Em 1981, no intuito de acompanhar a meu percurso escolar e com o receio de que me tornasse como o meu avó, eis que o meu pai veio para Portugal. Foram postas de lado as hipóteses de todos irmos viver para a Alemanha ou eu ficar em Portugal, com os avós, uma vez que ela temia que eu viesse a passar pelo que vivenciou até casar. Na Alemanha, com as regras de então, não sofreríamos muito do que o destino nos reservou, destacando a minha componente pessoal e social.

 

   Já em 1982, quando ainda poucas mulheres portuguesas trabalhavam fora de casa, eis que iniciou funções num matadouro, no qual o meu pai era responsável pelos serviço levados a cabo por mecânicos e motoristas. Quando aborrecido com o trabalho, ambos tremíamos. Sim, vi o meu pai bater na minha mãe, assim como muitas vezes levei, sem nada de errado ter feito e fui humilhado. A humilhação causar uma dor superior às agressões físicas, dado perpetuar-se. Ela, com o ambiente de um matadouro, ditou algumas das sentenças ao nível da sua saúde.

 

   Com falta de vaidade, a comida  foi sempre a sua libertação, algo que herdei. Quer dizer, no que à vaidade diz respeito, no meu caso, esta começou a morrer, lentamente, em 2009. Todos devemos alimentar o nosso lado extravagante, de prazeres, sem olhar aos ecos ocos e cínicos de alguns séquitos. O trabalho no campo, o contacto com a natureza e animais relaxavam-na. Sempre se sacrificou por mim.

 

   Mudadas algumas variáveis no contexto familiar, dado o meu crescimento, presenciamos o desemprego na família, sem que eu soubesse que tinha direito a bolsa de estudo. Tal uniu-nos. Sempre comprámos os bens a pronto e por vezes, dividíamos o custo de algo mais dispendioso. Entretanto, aprendi que amigos são de facto aqueles que permanecem nas horas difícieis. No entanto, admito sempre ter disfarçado e até representado, uma vez que "ter pena é não gostar de alguém".

 

   A sua submissão e anulação das vontades foram a sua imagem de marca. Todos devemos ousar, negociando os limites com a pessoa amada ou portadora de ciúmes doentios, que mais não são do que "falta de confiança em si próprio". Sei que, naqueles tempos, não se falava em traumas de guerra e ela não pretendia alimentar discussões semelhantes às que presenciara até casar, ... O mesmo já tinha feito a mãe, esta com tantas razões para divorciar-se, mas sempre pos em primeiro lugar as filhas. Já eu, perdi-me. A ansiedade crónica e a depressão vestiram-me com seus lençóis encardidos.

 

Quando comecei a trabalhar muito mudou. Ou pelo menos alguma coisa, dadas as dificuldades nas colocações, o mês de setembro sem trabalhar e com futuro incerto, sem qualquer contagem do tempo de serviço ou subsídio de desemprego. Assim, passamos 4 anos. Todavia, tornou-se mais fácil mimá-la. Difícil mesmo foi perder a fobia da condução. 

 

   Em 2011 veio a Doença de Alzheimer da minha avó. Sem qualquer apoio da irmã (onde está mesmo o iogurte que esta lhe trouxe até à data?) e acamada, transformamos o meu escritório num quarto onde a acolhemos. Os procedimentos para se tornar sua tutora, entre outros aspetos, foram de tal forma infernizados por quem devia amar a minha avó... Um ano depois, foi diagnostico um tumor numa glândula salivar da minha mãe. Nesta fase, apesar de colocado a 110 km de casa, eu e o meu pai, com a ajuda de uma senhora, conseguimos levar avante os cuidados essenciais junto da minha avó. As notícias dos progressos eram-me feitas chegar pela minha prima, sobrinha do meu pai, uma vez que o homem forte e duro, afinal não o era. As nossas máscaras caem com o tempo ou temos que mudá-las.

   Esta foi uma fase de mudança para a minha progenitora. De forma alguma pela positiva. Nunca se libertou dos fantasmas do período durante o qual esteve entubada, no aspeto monstruoso que foi melhorando com o decorrer do tempo, graças a um excelente cirurgião que a acompanhou, o magníco Dr. Canas. O facto de não poder usar prótese dentária e um pequeno declive no canto dos lábios esquerdos, o qual deve ver ampliado, geraram complexos em quem não os tinha. Quem sou eu para criticar?

   Passado um ano, eis-nos perante o diagnóstico do cancro do meu pai, mieloma múltiplo. Não escondi o que o futuro nos e lhe reservava. Pelo contrário, escondemo-lo dele. Foram dias de intenso sofrimento para quem não estava habituado a mentir ou ocultar a realidade, no seio familiar. Os dias seus dias, a caminho da morte, foram repletos de sangue, feridas, gemidos estridentes, médicos que não davam uma palavra de alento e ainda ousavam mentir, desconhecendo a minha área de formação. E tanto há a dizer. Não imagino o estado do corpo que ela deve ter encontrado na morgue do hospital. Fez questão de o vestir... Qualquer filme de terror é menos assustador. Contudo, o corpo foi tratado e trabalhado e conseguimos realizar um funeral digno. Difícil foi o nosso processo de luto embora, se nada acontece por acaso, a minha avó tenha sido o nosso estímulo, durante estes três anos, dado estar totalmente de nós. 

 

   Desde então, pelo menos 1 vez por ano, eis-nos perante um novo "susto" e o receio de novo cancro. 

   Acredito que não tenha sido o filho esperado/desejado e sei não corresponder às expetativas. As imposições das colocações de professores levaram-me a não dar continuidade à família. Não posso esconder o receio de cometer erros pelos quais passei e outros aos quais assisti. A hereditariedade não deixa de ser um fenómeno complexo. Isto sem esquecer o domínio mental, implícito em tantos acontecimentos nefastos.

 

   Temos conseguido sobreviver, com dignidade e algum alento. Por vezes, deixámo-nos abater, sobretudo quando a minha avó piora. Não fazemos questão da presença de quem não venha por bem. Antes sós.

 

Em suma, tenho uma mãe resiliente 

 

A música escolhida para o seu dia está repleta de sofrimento, não só na história como nos acordes iniciais.

 

 

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