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[In]sensato

O (in)correto deambula entre nós

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O (in)correto deambula entre nós

O tempo de serviço dos professores, os sindicatos e a realidade

Tiago Brandão Rodrigues

 

 

 

   A minha confiança nos políticos, por motivos de vária ordem, tem vindo a diminuir ao longo dos anos. Atualmente, posso dizer que é nula ou começa a estar abaixo de zero. 

 

   O desrespeito pelos professores têm vindo a atingir níveis dramáticos, como se os atuais tivessem as mesmas práticas dos de há muito, referindo-me àqueles que se limitavam a ler o manual adotado, sem qualquer preparação de uma aula com rigor, a falar com os alunos com comportamentos disruptivos, sem humanidade nem empatia ou interesse no progresso dos discentes. Talvez pelo exposto, alguns filhos de "antigos" professores considerem que pouco ou nada se faz nesta profissão. Registe-se que fui aluno de alguns professores "antigos" muito bons e aos quais estou muito grato. Inclusive,  por este ou aquele puxão de orelha. Poucos sabem que, na maioria das disciplinas, temos trabalhos de casa diários e a preparação de materiais ocupa muitas das nossas noites ou fins de semana. Há ainda que encontrar resposta para os diferentes tipos de alunos, sejam eles portadores de necessidades educativas especiais ou não. Os 3 meses de férias que muitos nos apontam não correspondem à verdade, bem como os vencimentos absurdos que nada me importaria de algum dia vir a auferir. Aliás, estudar para após 20 anos de prática letiva continuar a mais de 100km de casa levanta muitas questões, tais como as despesas em duplicado, a adaptação a novas realidades culturais; entre tantos outros aspetos a abordar em outro post. Não vou perder tempo com acusações dúbias nem na respetiva defesa, uma vez de que nada adianta tentar "conversar com um estúpido"

 

   Sim, há vários tipos de professores, mais ou menos empenhados, sendo da minha opinião pessoal que os menos esforçados são os mais elogiados pelos elementos da direção. Um professor que não se dedica pouco ou nada exige. O que dizer da inovação? Como tal, para estes, poucos são os conflitos com os pais. Por outro, estudar, pesquisar, ... requer tempo. Como destiná-lo a desempenhar um papel junto aos pares e lideranças, de forma a tornarmo-nos "fantásticos" e "ideais"?  Eu preocupo-me com a "imagem" que os meus alunos têm de mim e da preparação que lhes dei. É muito bom ter o feedback daqueles que o foram há 20 anos até à data, o que sucede. Regra geral, conversamos, entre outras coisas, de aspetos a melhorar, o que manter, ... Um professor constrói-se. 

 

   Não acredito na grande maioria das promessas eleitorais. Por outro lado, defendo que o ministro de determinada área deve estar a ela ligado. Um cientista ou como já sucedeu, uma escritora, a liderar o Ministério da Educação? Ainda que aluno, saudades dos tempos de Roberto Carneiro. 

 

   Atualmente, constatamos que os programas curriculares não foram alterados. E o quanto estão desajustados dos estádios do desenvolvimento das crianças e adolescentes. Este é um domínio que implica as reais aprendizagens dos alunos. Vivemos uma época de transmissão de conteúdos, na qual prevalece o cumprimento dos programas curriculares, custe o que custar, ao contrário do que se espera, do que nos diz a pedagogia e daquilo que estudei. Na altura, o ensino pela descoberta. Mas esta não foi a única medida que Tiago Brandão não levou avante. O que dizer das "irregularidades"/injustiças nos concursos de docentes? 

 

   De acordo com o Jornal Económico, "A proposta do Governo de contagem de tempo de serviço de dois anos e nove meses para as progressões dos professores custará 140 milhões de euros brutos anualmente a partir de 2023, avançou hoje fonte do Governo" Entretanto, os sindicatos, face a uma postura algo inusitada e ousada de Tiago Brandão, ameaçam com um ciclo de greves.Talvez, desta forma, até os pais comecem a respeitar os professores dos seus filhos. Sobretudo aqueles que os encaram como pais/educadores/psicólogos/baby sisters dos seus filhos. Se tal for levado a cabo, infelizmente nem todos irão aderir às greves, sobretudo os mais bem remunerados, que estão colocados perto de casa e com maior antiguidade. Já não é a primeira vez que se assiste a esta tendência.

 

    A decisão do ministro da Educação de não querer ver contabilizados os anos de serviço dos professores portugueses e de ter alegadamente chantageado os sindicatos para levar a sua avante, deixando as negociações caírem por terra, pode custar a tão desejada maioria ao partido socialista português. De acordo com o biólogo Joaquim Jorge, “O Governo e o ministro da Educação têm memória curta. José Sócrates perdeu a sua maioria absoluta por ter afrontado desmesuradamente os professores e foi obrigado a sair. Mais tarde, foi Pedro Passos Coelho que perdeu a maioria e também saiu”. Para o fundador do Clube dos Pensadores, o objetivo do ministro seria virar os professores contra os sindicatos de forma que estes os forçassem a “aceitar o inaceitável”. Contagem integral do tempo de serviço; regras próprias para aposentação dos professores; repor o horário em 35 horas semanais respeitando a componente letiva, não letiva e individual de trabalho; repensar a municipalização e a gestão democrática nas Escolas. Estas são as questões em debate e esta é a realidade. Pessoalmente, pouco me importa que aumentem ou não o meu vencimento, mas quero ver-me no devido e merecido escalão, com o real tempo de serviço contabilizado. Afinal, não trabalhei menos x anos. Acredito que uma negociação honesta possa consegui-lo. O que impede cessar a municipalização - vivam as colocações graças ao fator C (leia-se "cunha") - e gestão democrática das Escolas?

 

   Ainda de acordo com o biólogo, no seu parecer ao Notícias ao Minuto, "Os professores são uma classe decididamente em vias de extinção. No futuro próximo, em Portugal, ninguém vai querer ser professor e teremos de aceitar imigrantes para darem aulas. Em Inglaterra a maioria dos professores é indiana, em Portugal será dos PALOPs" Quantos alunos tive nos últimos 5 a 6 anos que desejam ser professores? Zero!