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[In]sensato

O (in)correto deambula entre nós

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O (in)correto deambula entre nós

A série 3%

3porcento

 

O Mundo de Lá 

O Processo ainda não está concluído!

 

   Este é um artigo de opinião alusivo à série 3% da Netflix, lançada em novembro de 2016 e realizada no Brasil. Como principais intérpretes encontramos Bianca Comparato, João Miguel, Michel Gomes e Rodolfo Valente. A primeira temporada tem 8 episódios. Nesta semana temos disponível a segunda. 3% insere-se no género de ficção científica.

 

   No Brasil, depois do Apocalipse, numa região denominada Continente, a falta de tudo leva os jovens, quando concretizam 20 anos a procurar a mudança para "o mundo de lá". Este chama-se Maralto, mas nem todos conseguem passar no “processo”. Os candidatos deparam-se com severas provas físicas e psíquicas, sendo avaliados por elementos do Processo.

   Considerei o 1.º episódio da 1.ª temporada aborrecido. O meu interesse começou quando faltavam cerca de 20 minutos para este acabar, mantendo-se até ao final da temporada. Até ao 8.º episódio não consegui deixar de dissociar a série da religião: Maralto correspondia ao Paraíso, o Processo aos nossos sacrifícios e o chefe do processo,  a um deus. Contudo, no 8.º episódio um ato deletou esta minha opinião…

   No decorrer das provas do Processo, somos chamados a refletir. Se estivéssemos fechados dentro de uma casa, ao estilo Big Brother, mas completamente trancados e com a comida racionada, dada em função do desempenho do grupo, qual seria o nosso comportamento? Daqui pode advir o que há de pior no humano? Outra questão, colocada ou que me surgiu foi, “as crianças são de todos nós ou só dos pais?”

   Para quem gosta de refletir, esta é a série ideal. Bem realizada e com boas interpretações. O guarda roupa é relativamente pobre (mas isso importa?) e os atores, na sua maioria, pouco conhecidos, mas com elevado desempenho. Para ver de uma vez só ou dividida em dois a três dias.

 

 

 

serie-3-porcento-netflix

 

 

 

   A confirmação da segunda temporada justificou um aumento de orçamento, algo que, de facto, fica nítido desde os primeiros minutos da nova remessa de episódios. Pedro Aguilera, criador e showrunner da atração, prometeu em entrevistas voltar maior no novo ano - e cumpriu isso com êxito.

   Se a primeira temporada se foca nas contradições e desdobramentos de uma seleção desumana que escolhe os poucos merecedores de um mundo perfeito, enquanto o restante segue relegado à miséria, a segunda expande os mundos que orbitam ao redor desse processo. Há um nítido investimento em cenários, figurinos e efeitos especiais na hora de dar vida tanto ao precário Continente quanto ao utópico e paradisíaco Maralto. 

   O roteiro da série, de modo geral, cresceu e entregou dez episódios dinâmicos e bem distribuídos - o programa não estende suas narrativas além do necessário, não deixa o espetador entediado e nem perde tempo dando voltas. A princípio, parece que a trama entregou a sua maior reviravolta na primeira metade, mas o público é surpreendido por outra guinada, tão inesperada quanto, já na reta final da temporada. A história é nada óbvia em todas as suas decisões criativas, das mais simples até as mais impressionantes.

   A condução dos personagens também surpreende: a série consegue entregar evoluções pouco maniqueístas, mostrando a ação de traumas e dinâmicas psicológicas complicadas agindo sobre os protagonistas, de modo que cada um deles atravessa uma montanha-russa que lhes confere complexidade. É difícil construir uma história em que todos seus protagonistas repensem diversas vezes suas ações e mudem de lado de acordo com o contexto sem arriscar a coerência na construção dos personagem, mas, mesmo com tantas viradas, em nenhum momento é possível questionar os rumos da trama.

   Além disso, se no primeiro ano as relações entre todos eles - com exceção, talvez, de Ezequiel (João Miguel) e Michele (Bianca Comparato) - operam em níveis superficiais, optando por se focarem nas motivações individuais, no novo ano isso é subvertido. Cada personagem ganha o seu próprio núcleo, colocando-os em jornadas pessoais enquanto, paralelamente, enfrentam um inimigo comum. Desenvolver melhor a relação de Michele e Joana (Vaneza Oliveira) ou de Rafael (Rodolfo Valente) e Fernando (Michel Gomes) foi um ponto alto, mas o que deu à série uma atmosfera de ter evoluído foram as tramas de cada um deles com novos rostos. Entre os personagens novos, o destaque fica com Marcela, de Laila Garin.

   

   Quem se incomodou com aspetos como diálogos truncados e coloquialidade muitas vezes forçada na fala dos personagens, provavelmente continuará torcendo o nariz para o projeto - esse problema melhorou, mas ainda está lá. Contudo, assim como no primeiro ano, o saldo é positivo. O universo da trama se expandiu - deixando espaço para crescer ainda mais em uma possível próxima temporada - e a história principal se tornou mais densa e complexa. Mesmo com problemas recorrentes, 3% aparou várias arestas e entregou um conteúdo divertido e empolgante.